Mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a votar nas próximas eleições, e, entre eles, quase 2 milhões de pessoas com deficiência. Em Mato Grosso do Sul, são 22.683 eleitores com deficiências cadastrados na Justiça Eleitoral. Um público que representa milhares de histórias, mas que ainda aparece pouco no debate político.
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A discussão vai muito além do dia da votação. Quem vive com uma deficiência enfrenta desafios diários para circular pela cidade, estudar, trabalhar e ter acesso a serviços básicos. Muitas vezes, essas necessidades são esquecidas até mesmo pelas promessas de campanha.
José Aparecido de Sousa, de 48 anos, é deficiente visual. Presidente do Instituto Sul-mato-grossense para Cegos, ele convive com quem luta diariamente para se incluir em um mundo pouco acessível.
“Em períodos eleitorais, a gente até ouve falar sobre acessibilidade, mas nem sempre ela acontece da forma como deve acontecer. A acessibilidade tem que quebrar barreiras, tem que eliminar dificuldades e garantir que a pessoa com deficiência exerça seus direitos. A gente precisa garantir os nossos espaços. Precisamos estar onde falam sobre nós.”
José Aparecido de Sousa
Nessa realidade, o maior desejo não é ser tratado como exemplo de superação, é ser reconhecido como cidadão, com os mesmos direitos e oportunidades. Essa é a luta de Helenice Fátima Souza, mãe de Pedro Henrique Duarte, de 17 anos, que tem autismo nível 3 de suporte, não verbal.
“Inclusão é meu filho participar da sociedade. Viver na sociedade como qualquer pessoa vive; ter direitos e acesso a tudo que uma pessoa sem deficiência tem. A dificuldade é que a gente ainda precisa bater nas portas para conseguir aquilo que deveria ser um direito. Se não é a família lutar, cada direito que uma pessoa com deficiência precisa simplesmente não acontece. É muito difícil encontrar um político sensibilizado a ponto de criar políticas e legislações que favoreçam a pessoa com deficiência. O que a gente consegue é resultado da mobilização.”
Helenice Fátima Souza
A luta das famílias também passa pelo acesso à educação, à saúde, ao transporte e à inclusão. Segundo o cientista social e político, Daniel Miranda, é justamente aí que as políticas públicas têm que fazer diferença no dia a dia. E as pessoas com deficiência precisam também protagonizar a política.
“Todo grupo só ganha força quando está organizado. É fundamental que as pessoas com deficiência se mobilizem e que os partidos abram espaço para que elas disputem eleições e ampliem a representatividade. Não basta defender essas pautas no discurso. É preciso dar espaço para que as pessoas com deficiência disputem eleições e tenham chances reais de ocupar mandatos. É assim que a representatividade aumenta.”
Daniel Miranda
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, esse eleitorado reúne pessoas que estudam, trabalham, pagam impostos e participam da vida em sociedade. A eleição escolhe representantes, mas também é uma oportunidade para perguntar quem, de fato, está sendo representado. Quando quase 2 milhões de brasileiros com deficiência ainda precisam lembrar à sociedade que existem, o desafio vai muito além de chegar à urna.
“Eu penso que isso aos poucos vem mudando. Porque, como todos os grupos são minorias, minorias no sentido de não terem os seus direitos necessariamente atendidos de modo pleno, eles vão se organizando, vão fazendo presentes aos poucos na mídia, em programas de televisão, em obras culturais, novelas, etc. Isso aos poucos vai dando mais visibilidade”.
Daniel Miranda