Nos dias 24 e 25 de julho, aconteceu o Festival Rainha Terê. No dia 25, data em que é celebrado o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, os alunos do Projeto Zuri subiram ao palco para apresentar o espetáculo “Na Mala dos Griots”.
Foi uma apresentação emocionante e, acima de tudo, um momento de conquista para as crianças e adolescentes que participaram de todo o processo.
O espetáculo foi resultado de aproximadamente seis meses de oficina de teatro, realizada no Salão Comunitário Ezequiel Ramin, conduzida pelo professor Ricardo Paçoca, responsável pela construção do roteiro, direção e formação teatral da turma.
A proposta partiu da ideia da mala como símbolo daquilo que atravessa gerações: lembranças, histórias, ensinamentos, cantigas e saberes que continuam vivos porque são contados, cantados, encenados e compartilhados.
Os griots são tradicionalmente associados à transmissão oral de memórias, histórias, conhecimentos e valores de geração em geração. A partir dessa inspiração, o espetáculo trouxe para a cena narrativas que atravessam a ancestralidade africana e afro-brasileira.
O roteiro trabalhou alguns itãs de tradição iorubá, utilizando as narrativas como ponto de partida para provocar reflexões sobre força, liberdade, estratégia, relações humanas e diferentes formas de enfrentar as batalhas da vida.
A primeira história apresentada foi a de Oxum e Xangô.
Na montagem, enquanto Xangô parte para a guerra, Oxum permanece em seu palácio. Quando o conflito chega até ela, utiliza seus próprios recursos e estratégias para enfrentar aquela batalha.
A cena permite diferentes interpretações e convida a pensar que nem todas as batalhas são vencidas da mesma maneira. Cada pessoa pode possuir suas próprias ferramentas, seus próprios caminhos e sua própria forma de lutar.
Em seguida, o espetáculo apresenta a narrativa de Oyá e Ogum, trazendo elementos relacionados ao segredo, à liberdade e à força de uma mulher que não aceita permanecer presa a uma história que lhe foi imposta.
Na encenação, quando seu segredo é descoberto, Oyá entrega ao filho parte de seus chifres e orienta que ele os utilize para chamá-la quando precisar dela. Depois, ela segue seu próprio caminho.
A narrativa então atravessa o tempo e chega a uma personagem histórica de grande importância para Mato Grosso: Tereza de Benguela, liderança do Quilombo do Quariterê.
Conhecida como Rainha Tereza, ela liderou uma comunidade formada por pessoas negras e indígenas no século XVIII. O Quilombo do Quariterê possuía organização política e econômica própria e resistiu durante décadas ao sistema escravista.
Na montagem, Tereza de Benguela aparece como símbolo de liderança, estratégia, organização e resistência. Sua história estabelece uma ponte entre as narrativas ancestrais e a história de uma mulher negra que construiu, em território mato-grossense, uma experiência de liberdade e organização coletiva.
Teatro, capoeira e musicalidade
Um dos elementos marcantes do espetáculo foi o diálogo construído entre teatro e capoeira.
A sonoplastia foi conduzida pela Instrutora Fofinha (Valéria Rodrigues), utilizando a musicalidade e os instrumentos da capoeira como parte da composição cênica.
O coral foi formado pelos próprios alunos do Projeto Zuri, capoeiristas que passaram a ocupar também o lugar de cantores e participantes da construção teatral.
Assim, a capoeira não aparece apenas como acompanhamento musical. Ela participa da narrativa.
Os ritmos, cantigas e instrumentos ajudam a conduzir as transições entre as histórias e constroem uma atmosfera própria para cada momento do espetáculo.
Na representação da trajetória de Tereza de Benguela, o corpo também passa a contar a história. Movimentos relacionados à capoeira são incorporados à cena para representar luta, resistência e enfrentamento.
Essa escolha cria um diálogo com a própria ancestralidade da capoeira e com outras práticas corporais africanas que fazem parte das discussões sobre suas matrizes e caminhos históricos.
É o encontro entre teatro, capoeira, musicalidade, oralidade e memória.
O espetáculo recebeu destaques durante o Festival Rainha Terê, incluindo o reconhecimento de duas atrizes, as alunas Sol (Rhillary) e Lua (Ludmylla) e da sonoplastia.
Mas talvez o resultado mais importante tenha acontecido longe dos prêmios e dos destaques.
Ao final da apresentação, os alunos saíram orgulhosos de si e satisfeitos por terem conseguido concluir aquilo que haviam construído durante meses.
Para muitos deles, estar naquele palco significava vencer também seus próprios medos, aprender a trabalhar em grupo, memorizar textos, compreender personagens, ocupar um espaço de expressão e perceber que eram capazes de levar até o fim uma produção artística construída coletivamente.
“Na Mala dos Griots” não terminou quando as cortinas se fecharam.
Porque o que foi levado para o palco continua sendo carregado pelos alunos: as histórias aprendidas, as músicas, os movimentos, as memórias e os ensinamentos encontrados durante o caminho.
A proposta não é encontrar uma única resposta para cada narrativa, mas permitir que cada história provoque pensamentos e novas perguntas.
A memória é passada de geração em geração quando alguém decide carregá-la adiante.
E, naquele 25 de julho, no Festival Rainha Terê, foram os alunos do Projeto Zuri que assumiram essa tarefa: abriram suas malas, compartilharam histórias e mostraram, através do teatro e da capoeira, que ancestralidade também pode ser vivida, aprendida, criada e transmitida através da arte.