brasileiro realiza sonho de infância com ouro histórico no Mundial de parajiu-jítsu

Depois de uma temporada invicta, Nelson Cabral da Silva Júnior conquistou o título mundial de parajiu-jítsu na categoria L1/F1 em agosto de 2026 e levou o Brasil ao lugar mais alto do pódio. Conhecido como Juninho, o atleta alcançou o feito após anos enfrentando preconceitos, dificuldades e barreiras que começaram ainda na infância. Agora, ela espera que sua trajetória mostre a outras pessoas que sonhos podem ser transformados em realidade por meio do esporte.

Juninho comemora em Abu Dhabi a conquista do título mundial de parajiu-jítsu. (Foto: Divulgação)

Antes de conquistar o título mundial de parajiu-jítsu, Juninho precisou superar desafios que o acompanharam desde os primeiros anos de vida. Nascido em 1991, ele conviveu com dúvidas sobre sua capacidade, enfrentou situações de preconceito e teve que provar inúmeras vezes que era capaz de alcançar os mesmos objetivos que qualquer outra pessoa.

Anos depois, a resposta veio da forma mais simbólica possível: com a medalha de ouro no peito e a bandeira do Brasil no lugar mais alto do pódio.

A conquista aconteceu após uma temporada impecável. Em 2026, Juninho disputou campeonatos estaduais, nacional e o Mundial sem sofrer derrotas. O resultado o colocou entre os principais nomes do parajiu-jítsu no mundo.

“A ficha ainda não caiu. É uma mistura de felicidade, gratidão e dever cumprido. Saber que sou o número um do mundo é algo muito gratificante”, contou em entrevista exclusiva.

Mobilidade, força e técnica foram os diferenciais de Juninho durante a campanha invicta que terminou com o ouro mundial. (Foto: Divulgação)
Mobilidade, força e técnica foram os diferenciais de Juninho durante a campanha invicta que terminou com o ouro mundial. (Foto: Divulgação)

Um sonho que começou ainda criança

Apesar de estar no jiu-jítsu desde 2019, o desejo de representar o Brasil em uma competição internacional exisitia desde a infância. Quando criança, Juninho sonhava em vestir a camisa da Seleção Brasileira como jogador de futebol. O esporte mudou, mas o objetivo permaneceu o mesmo.

Sua entrada no jiu-jítsu foi incentiva pelo professor Mário Torquete. Poucos meses após iniciar os treinamentos, ele decidiu participar do primeiro campeonato, mesmo enfrentando atletas sem deficiência.

“Era um sonho representar o Brasil em um Mundial. Eu imaginava isso no futebol, mas aconteceu através do jiu-jítsu. Com três meses de treino fiquei em segundo lugar. Foi quando percebi que o jiu-jítsu poderia dar certo para mim.”

Juninho enfrentou preconceitos e desafios desde a infância até alcançar o topo do parajiu-jítsu mundial. (Foto: Divulgação)
Juninho enfrentou preconceitos e desafios desde a infância até alcançar o topo do parajiu-jítsu mundial. (Foto: Divulgação)

Daquele momento em diante, vieram títulos estaduais, participações em campeonatos nacionais e a primeira convocação para representar o Brasil em uma competição internacional. Ainda em 2019, conquistou um título no Uruguai e passou a acreditar cada vez mais no sonho de chegar ao topo da modalidade.

A confiança construída ao longo dos anos

Juninho conta que a conquista mundial começou muito antes da luta decisiva. Segundo ele, a preparação mental teve a mesma importância dos treinos físicos. Mesmo quando ainda era iniciante, costumava dizer ao treinador que um dia seria campeão mundial.

“Eu falava para o meu professor que, se um dia eu fosse convocado para disputar um Mundial, eu seria campeão. Sempre trabalhei minha mente para isso.”

A confiança foi essencial principalmente nos momentos em que precisou lidar com julgamentos e descrença. “Sou desacreditado desde quando nasci. O primeiro desafio foi mostrar para as pessoas que eu era capaz.”

Após anos enfrentando barreiras e preconceitos, Juninho conquistou o mundo e escreveu seu nome na história do parajiu-jítsu. (Foto: Divulgação)
Após anos enfrentando barreiras e preconceitos, Juninho conquistou o mundo e escreveu seu nome na história do parajiu-jítsu. (Foto: Divulgação)

Na infância, parte da família teve dificuldades para aceitar sua condição física e, durante a vida escolar, ele enfrentou situações em que professores demonstravam receio de incluí-lo em atividades esportivas.

“Muitos tinham medo por causa da minha deficiência. Mas eu nunca desisti porque sempre soube do meu potencial.”

O esporte que mudou sua vida

Antes mesmo do jiu-jítsu, o esporte já fazia parte do cotidiano de Juninho. Ao longo da infância e da adolescência, ele participou de atividades como futebol, futsal, vôlei e handebol. Estar perto do esporte sempre foi uma forma de mostrar que não se enxergava diferente das outras crianças.

No jiu-jítsu, encontrou muito mais do que uma modalidade esportiva. Encontrou um ambiente onde acredita que qualquer pessoa pode se desenvolver.

“O esporte mudou minha vida. Mudou minha mentalidade e ajudou a formar a pessoa que sou hoje. O jiu-jítsu é um esporte para todos, ensina disciplina, respeito e mostra que ninguém é melhor do que ninguém e foi isso que me fez me apaixonar pela modalidade.”

Medalha de ouro conquistada no Mundial após uma temporada sem derrotas. (Foto: Divulgação)
Medalha de ouro conquistada no Mundial após uma temporada sem derrotas. (Foto: Divulgação)
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A realidade da categoria L1/F1 no parajiu-jítsu

No parajiu-jítsu, os atletas são divididos conforme o tipo de deficiência. Juninho compete na categoria L1/F1, destinada a pessoas com comprometimento nos membros superiores e inferiores. Como existem poucos competidores com características semelhantes às suas, ele frequentemente enfrenta adversários cadeirantes.

“É um desafio enorme porque eles têm as duas mãos. Cada luta exige uma estratégia diferente. Minha maior vantagem é a movimentação. Sou muito ágil e consigo usar isso a meu favor.”

O Campeonato Mundial reuniu atletas de diversos países e consagrou Juninho como campeão da categoria L1/F1. (Foto: Divulgação)
O Campeonato Mundial reuniu atletas de diversos países e consagrou Juninho como campeão da categoria L1/F1. (Foto: Divulgação)

Apesar do título mundial, ele acredita que o parajiu-jítsu ainda é pouco conhecido pelos brasileiros. Falta divulgação, investimento e incentivo para que mais pessoas com deficiência possam praticar esportes e disputar competições.

“Muita gente ainda não conhece o parajiu-jítsu. Precisamos de mais apoio e mais incentivo ao esporte adaptado. O incentivo financeiro é uma das coisas mais importantes. Muitas pessoas com deficiência têm capacidade, mas precisam de oportunidades.”

Ele defende que as federações trabalhem juntas para ampliar as oportunidades para atletas paralímpicos e paradesportistas.

O abraço que ficou marcado

Entre todas as lembranças da conquista mundial, uma permanece viva na memória do atleta. Logo após confirmar o título, Juninho recebeu um abraço emocionado do professor Mário Torquete, responsável por ajudá-lo desde os primeiros treinos.

“Ele chorou comigo e disse que eu merecia aquele momento porque tinha treinado para isso.”

Inesquecível abraço entre Juninho e o professor Mário Torquete após a conquista do título mundial. (Foto: Divulgação)
Inesquecível abraço entre Juninho e o professor Mário Torquete após a conquista do título mundial. (Foto: Divulgação)

Outro momento especial aconteceu quando enviou mensagens para a família contando sobre o resultado. A resposta do pai foi uma das mais marcantes. “Ele disse que tinha muito orgulho de mim e que eu era o orgulho da família.”

Juninho também lembra com carinho da irmã mais velha, que considera um exemplo em sua vida. “Agradeci por ela nunca ter desistido de mim e por ter sido meu espelho durante toda a minha caminhada.”

Uma mensagem para quem sonha

Hoje campeão mundial de parajiu-jítsu, Juninho quer que sua história seja lembrada não apenas pelos títulos conquistados, mas pela mensagem que transmite. Segundo ele, a principal lição é nunca desistir.

“Quero que as pessoas entendam que elas também são capazes. Não importa o que os outros falem. Vá, tente e acredite em você.”

Os próximos objetivos já estão traçados, além de conquistar novos títulos internacionais no parajiu-jítsu, ele sonha em proporcionar mais qualidade de vida para a família e representar novamente o Brasil em grandes competições.

“Meu próximo sonho é disputar uma Olimpíada. E não quero apenas participar. Quero ser campeão.”

Mais do que um campeão mundial, Juninho se tornou exemplo para pessoas com deficiência que sonham seguir no esporte. (Foto: Divulgação)
Mais do que um campeão mundial, Juninho se tornou exemplo para pessoas com deficiência que sonham seguir no esporte. (Foto: Divulgação)

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