Mato Grosso entra em rota de crise nacional de bebidas adulteradas

Um esquema clandestino de falsificação de destilados transformou o hábito de consumir bebidas alcoólicas em um risco letal no interior e na região metropolitana de Mato Grosso.

O estado foi apontado em uma recente auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) como um dos territórios mais castigados pela crise do metanol — um composto químico de uso industrial que foi misturado ilegalmente a garrafas de destilados, provocando um surto de intoxicações severas.

O monitoramento nacional, concentrado na reta final do ano passado, mapeou quase 900 chamados de emergência médica no país associados ao consumo de lotes adulterados, deixando um rastro de 22 mortos no Brasil.

Embora o estado de São Paulo tenha concentrado o maior volume de casos, a letalidade em solo mato-grossense assustou as autoridades de saúde: das 16 suspeitas notificadas no estado, sete foram confirmadas em laboratório e cinco pessoas morreram após ingerirem o produto tóxico.

O avanço silencioso do veneno não escolheu região. As mortes se dividiram entre Querência (que registrou duas baixas), Itanhangá, Nova Brasilândia e Várzea Grande.

O diagnóstico do TCU: Portas abertas para a fraude

A fiscalização da corte de contas, conduzida sob a relatoria do ministro Bruno Dantas, expôs uma fragilidade preocupante na segurança do consumidor brasileiro. O problema não está na falta de leis, mas no isolamento dos órgãos que deveriam proteger a população. Anvisa, Ministério da Agricultura e Ministério da Saúde atuaram de forma desconectada nos últimos três anos, criando o ambiente perfeito para a atuação de laboratórios piratas.

O pente-fino do tribunal identificou que o país é incapaz de rastrear o destino do metanol após a sua fabricação, o que permite o desvio do insumo químico para o mercado de bebidas sem deixar rastros digitais. Além disso, o TCU criticou a postura do governo federal, classificada como “reativa” — ou seja, as autoridades só se mobilizam para recolher produtos e emitir alertas quando os hospitais já estão cheios e os óbitos começam a se acumular.

Pirataria de bilhões

A dimensão econômica dessa fraude impressiona e ajuda a explicar o tamanho do desafio. O mercado nacional de destilados movimenta cifras que alcançam R$ 303 bilhões ao ano.

O grande problema é que uma em cada três bebidas vendidas no Brasil é fruto do mercado ilegal, gerando um rombo de R$ 85 bilhões em impostos sonegados e perdas econômicas anuais.

Embora o lote batizado com metanol represente uma fatia pequena de toda a pirataria nacional (cerca de 4%), o potencial destrutivo da substância colocou o tema no topo das prioridades de segurança pública, já que o composto pode causar cegueira definitiva, falência renal e morte rápida.

Resposta médica e novas regras

Como medida de contenção após o pior momento da crise, o Ministério da Saúde montou um plano de contingência e enviou lotes de antídotos específicos para todos os estados. Em Mato Grosso, a agilidade no diagnóstico salvou a vida de seis pacientes, que receberam a medicação a tempo de neutralizar o componente químico no organismo.

Para fechar o cerco contra os falsificadores, o TCU determinou que agências reguladoras, Ministério da Agricultura, Agência Nacional do Petróleo (ANP) e Receita Federal unifiquem seus bancos de dados imediatamente. A meta é criar um sistema de cruzamento de notas fiscais que identifique compras suspeitas de metanol antes que a substância chegue aos balcões de venda e às mesas dos consumidores.

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