O avanço da tecnologia, a volatilidade do mercado e o aumento da complexidade das operações rurais têm transformado a gestão em um fator decisivo para os negócios no campo. Esse é um dos principais temas do episódio desta semana do podcast Agro de Primeira MT, que recebe a consultora em gestão para o agronegócio Vanessa Chiamulera fundadora da Jera Agro Inteligência, para discutir por que produzir bem já não é suficiente para garantir a competitividade das propriedades rurais.
Durante a entrevista, Vanessa chama atenção para um problema que tem se tornado cada vez mais frequente nas fazendas: a elevada rotatividade de colaboradores. Segundo ela, algumas propriedades registram índices entre 70% e 80%, cenário que, além de aumentar custos, compromete a eficiência operacional e evidencia falhas na gestão.
Acompanhe o episódio completo:
“A gente tem visto números altíssimos de rotatividade. Tem propriedades com 70%, 80% de rotatividade. Se você investe em treinamento para a sua equipe e, em um ano, ela gira 70% ou 80%, você perdeu boa parte desse investimento. A questão é: como vamos reagir a isso? Só vamos reclamar?”, questiona.
Para a consultora, a dificuldade em contratar e reter profissionais vai além da escassez de mão de obra. O desafio, segundo ela, está na forma como as equipes são lideradas. Vanessa avalia que muitos produtores ainda concentram esforços na produção e deixam em segundo plano aspectos como comunicação, desenvolvimento de lideranças, clima organizacional e planejamento de pessoas.
“Todo produtor reclama da mão de obra, da rotatividade. Mas quando você pergunta quantas reuniões ele faz com a equipe, a resposta muitas vezes é nenhuma. Não adianta querer melhorar compras, financeiro ou qualquer outro processo se você não olhar para as pessoas. Tudo envolve pessoas”, defende.
Comunicação como ferramenta de gestão
Ao longo da conversa, Vanessa defende que um dos primeiros passos para transformar a cultura das propriedades é estabelecer rituais de gestão, principalmente reuniões periódicas com as equipes. Na avaliação dela, a ausência de diálogo impede que processos sejam implantados com sucesso e fortalece um modelo de liderança ultrapassado.
“Se eu pudesse implantar apenas uma mudança em qualquer propriedade rural, seria criar uma cultura de comunicação. Reuniões, diálogo, direcionamento. Só escrever um processo e colocar na parede não funciona. Você precisa explicar, conversar, ouvir e fazer as pessoas participarem”, comenta.
Ela explica que o agronegócio vive uma mudança geracional sem precedentes, reunindo até quatro gerações trabalhando simultaneamente dentro das empresas rurais. Esse cenário, aliado ao avanço tecnológico, exige novas competências dos líderes.
Tecnologia e problemas de liderança
Outro ponto enfatizado pela especialista é que o investimento em máquinas e tecnologia, embora importante, não elimina a necessidade de desenvolver lideranças capazes de conduzir equipes.
Segundo Vanessa, muitos produtores acreditam que a inovação tecnológica resolverá problemas de gestão, quando, na prática, decisões, relacionamento e desenvolvimento humano continuam dependendo das pessoas.
“O produtor às vezes acha que a gestão vai acontecer através da tecnologia. Não vai. Tem coisas que são trabalho do ser humano: desenvolver pessoas, dar feedback, conversar com a liderança, lidar com gerações diferentes. A tecnologia ajuda, mas ela não substitui isso”, garante.
Na reta final da entrevista, Vanessa afirma que o principal desafio do agronegócio não está apenas na sucessão familiar ou na adoção de novas tecnologias, mas na preparação das lideranças para conduzir equipes em um ambiente cada vez mais complexo.
“A era do comando e controle acabou. Tem que existir direção, mas o controle precisa ser mais fluido. O líder precisa ter coragem para ensinar, para delegar e para ter conversas difíceis. A liderança não é boa quando a pessoa faz falta. Ela é boa quando consegue desenvolver uma equipe que continua funcionando mesmo sem ela”, finaliza.
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