Dono de lotérica e ex-funcionária disputam bilhete danificado premiado de R$ 29 milhões da Mega-Sena em MT; entenda

Acusada de furtar um bilhete premiado da Mega-Sena, a ex-funcionária de uma lotérica em Sinop (MT), Clarice Simon, afirma que pagou pela aposta e reivindica na Justiça um prêmio de R$ 29 milhões. O dono do estabelecimento, porém, diz ser o verdadeiro proprietário do comprovante, e a fortuna segue bloqueada até decisão judicial.

Clarice Simon é ex-funcionária de lotérica de Sinop. – Foto: TV Globo

A disputa começou em agosto de 2023, quando um bilhete da Mega-Sena apresentou falha na impressão durante o atendimento a uma cliente. Segundo a investigação, o comprovante danificado foi guardado na lotérica e, após o sorteio, descobriu-se que ele também estava entre as apostas premiadas. Desde então, ex-funcionária e ex-patrão apresentam versões diferentes sobre quem tem direito ao prêmio milionário.

Ainda segundo a investigação, naquele dia, Clarice guardou o bilhete danificado em um cofre desativado, usado como armário, e fechou a lotérica.

Na noite do mesmo sábado, o sorteio da Mega-Sena teve prêmio total de R$ 116 milhões, dividido entre quatro apostas vencedoras: uma de Fortaleza (CE), uma de Uberlândia (MG) e duas feitas na mesma lotérica de Sinop. Cada aposta premiada ficou com cerca de R$ 29 milhões.

A apostadora que recebeu o bilhete reimpresso teve o prêmio pago normalmente. O outro bilhete, o que havia saído com defeito, acabou parando na Justiça.

As imagens mostradas pelo Fantástico registram a segunda-feira seguinte ao sorteio. Clarice aparece chegando para o turno da tarde e, antes de começar a trabalhar, retira do armário o comprovante danificado que havia sido guardado no sábado. A colega Vani Porfírio ajuda a conferir o resultado e confirma que o bilhete era um dos premiados.

Após a confirmação, Clarice deixou a lotérica e foi com o marido a uma agência da Caixa Econômica Federal. Segundo a investigação, os dois disseram que a aposta havia sido feita por Cladesir.

Lotérica de Sinop, que foi destaque no Fantástico após disputa por prêmio. - Foto: TV Globo
Lotérica de Sinop foi destaque no Fantástico após disputa por prêmio. – Foto: TV Globo

A Caixa pediu prazo de 90 dias para pagar o prêmio e abriu um procedimento interno para verificar o bilhete danificado. Quase três anos depois, Clarice ainda não recebeu o dinheiro, mas sustenta que pagou pela aposta.

“Se faltasse no caixa, a gente pagava. Se o jogo rasurava, a gente pagava. Tudo, a gente pagava ali”, contou Clarice ao Fantástico.

A regulamentação das apostas da Caixa prevê que bilhetes defeituosos, quando custam menos de R$ 10, não são ressarcidos e devem ter os custos assumidos pelas lotéricas. Era o caso da aposta de Sinop, que custava R$ 5 em 2023.

Vani Porfírio, colega de Clarice e responsável pelos relatórios de caixa da lotérica, também foi ouvida pela reportagem. “Na segunda-feira, eu cheguei cedo, fiz o conferi, tirei os relatórios. O caixa dela estava OK, não tava faltando nada. Isso significa que ela pagou, o bilhete é dela”, contou Vani.

Clarice afirma que procurou o dono da lotérica depois de saber da premiação. “Eu paguei no dia; na quarta-feira, eu fui lá e conversei com o dono da lotérica. Depois aí que começou toda essa investigação, ele falando que o bilhete seria dele”, disse.

Amélio Lenk é o dono da lotérica envolvida na confusão do bilhete. - Foto: Reprodução
Amélio Lenk é o dono da lotérica envolvida na confusão do bilhete. – Foto: Reprodução

Enquanto Clarice Simon afirma que comprou o bilhete premiado, o dono da lotérica, Amélio Lenk, também diz ser o proprietário da aposta e disputa a fortuna na Justiça.

O advogado dele, Rafael Baldaço, afirma que um bilhete com defeito não pode ser reaproveitado, independentemente do valor da aposta. “Por diversos motivos, pode acontecer esse defeito no bilhete. Havendo qualquer defeito, nesse bilhete, a orientação, a regra da Caixa, é que ele não pode ser repassado ao consumidor”, afirmou.

Questionada pelo Fantástico sobre a quem pertencem os bilhetes danificados, a Caixa informou que não se manifesta sobre processos judiciais em andamento. A instituição disse ainda que observa rigorosamente a legislação e cumpre todas as determinações legais e judiciais relacionadas à operacionalização e ao pagamento de prêmios.

Em outubro de 2023, o dono da lotérica registrou queixa de furto na polícia. O delegado Victor Freitas afirmou que a investigação não confirmou a versão apresentada pela ex-funcionária.

“A suspeita, né, a funcionária, ela diz, alega depois que pagou pelo bilhete, o que não é verdade, porque os comprovantes que ela apresenta não eram relacionados ao pagamento do bilhete em si”, afirmou.

Clarice e o marido foram indiciados pela Polícia Civil e denunciados pelo Ministério Público. Em novembro de 2023, três dias antes do fim do prazo limite para o pagamento do prêmio, a Justiça determinou o bloqueio do dinheiro.

Quase dois anos depois, em setembro de 2025, Clarice Simon e Cladesir Picoli se tornaram réus por furto qualificado. Apesar da disputa entre a ex-funcionária e o dono da lotérica, o promotor do caso, Hebert Dias Ferreira, defende que o bilhete não pertence formalmente a nenhum dos dois.

Ao ser questionado pelo Fantástico se o bilhete seria de Clarice caso ela tivesse pago pela aposta, ele afirmou que “Todo bilhete defeituoso, né, e ele decorrente de uma aposta que seja inferior a 10 reais, não permite ser reembolsado o proprietário da agência. Esse bilhete, ele é recolhido e descartado sem a conferência para fins de verificação se ele foi ou não algum bilhete contemplado”, afirmou.

O início das audiências na Justiça está marcado para fevereiro de 2027. Até lá, o prêmio de R$ 29 milhões ficará bloqueado.

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