Sem roteiro, casal de MT embarca em viagem ‘até o fim do mundo’

Sem roteiro e planejando cada parada na véspera, o casal Victoria Dalla Vecchia Martini e Lucas Martini, de Sorriso (MT), está cruzando países de carro rumo a Ushuaia, na Argentina. A viagem de mais de 5 mil quilômetros é mostrada nas redes sociais.

Casal de Sorriso atravessa países de carro e compartilha a experiência nas redes sociais. – Foto: Reprodução/Instagram

Victoria e Lucas decidiram deixar o roteiro de lado e viver a experiência de forma mais espontânea. “Temos roteiro? Não, mas estamos amando a viagem”, conta ela, em um vídeo publicado no perfil deles.

A espontaneidade da frase ajuda a explicar o que tem despertado a curiosidade dos internautas. Afinal, não é comum ver um casal sair do norte de Mato Grosso rumo a um dos pontos mais extremos da América do Sul sem uma programação detalhada.

Conhecida como a cidade mais austral do mundo, Ushuaia fica na província da Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina. Cercada por montanhas nevadas e banhada pelo Canal de Beagle, a cidade é considerada um dos destinos mais desejados por viajantes que sonham em percorrer o continente de carro.

A distância entre Sorriso e Ushuaia ultrapassa os 5 mil quilômetros. O trajeto inclui trechos de serra, estradas de chão, travessias internacionais e paisagens que mudam completamente ao longo do caminho.

Mas, para Victoria, a viagem representa muito mais do que alcançar um destino turístico.

Uma decisão tomada em cima da hora

A ideia surgiu a partir de um convite de amigos do casal, que já haviam percorrido parte da rota até Bariloche e planejavam seguir até Ushuaia. “A ideia surgiu porque os nossos amigos já tinham feito essa rota até Bariloche. Eles queriam chegar até o Ushuaia, nos chamaram e nós aceitamos. Estamos indo junto com eles também”, conta Victoria.

Ela explica, porém, que a decisão de aceitar o convite não foi apenas pelo gosto por viagens.

Em 2020, Victoria recebeu o diagnóstico de retinose pigmentar, uma doença genética degenerativa que afeta as células da retina e pode provocar perda progressiva da visão. A descoberta não foi simples.

Victoria Martini faz uma pausa para admirar a paisagem durante a viagem rumo ao Ushuaia. - Foto: Reprodução/Instagram
Victoria Martini faz uma pausa para admirar a paisagem durante a viagem rumo ao Ushuaia. – Foto: Reprodução/Instagram

Ela lembra que, quando recebeu o diagnóstico, ouviu dos médicos uma frase que nunca esqueceu. “Quando eu descobri essa doença, em 2020, a médica falou que eu tinha os olhos de uma pessoa de 60 anos”, relata.

Desde então, a mato-grossense passou por exames, acompanhamentos e chegou a ser selecionada para participar de um estudo clínico com um medicamento experimental.

Mas outra condição ocular acabou mudando os planos.

Ela desenvolveu um buraco lamelar, alteração que afeta a visão central e que evoluiu rapidamente nos últimos anos. Os médicos chegaram a discutir uma cirurgia, mas recomendaram que ela não fosse realizada devido aos riscos envolvidos.

Além disso, a nova condição fez com que Victoria não pudesse participar do estudo. A notícia foi um choque. Ela conta que enfrentou um período de depressão e passou a enxergar a vida de outra forma. “Isso me fez ficar com esse senso de urgência muito maior nessa minha vontade de viajar. Então, por isso que a gente está indo agora”, afirma.

Desde que descobriu a doença, Victoria diz que desenvolveu um desejo quase obsessivo de conhecer lugares e viver experiências. “Desde que eu descobri toda essa doença, eu sempre quis ver tudo, ver tudo”, diz.

Ushuaia, curiosamente, não era prioridade. Segundo ela, o destino ganhou importância pela oportunidade de viajar de carro e pela companhia dos amigos. “Ushuaia não estava entre os primeiros sonhos, mas como a gente gosta muito de viajar de carro e os nossos amigos estavam indo, a gente resolveu ir também. É uma viagem de uma vida”, afirma.

A aventura começou em Mato Grosso

Os primeiros quilômetros da viagem foram percorridos de Sorriso até Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul. No dia seguinte, Victoria e Lucas cruzaram a fronteira com o Paraguai para comprar alguns itens necessários para circular de carro pela Argentina.

Depois, seguiram até Itá, em Santa Catarina, onde passaram alguns dias com familiares. A parada teve um significado especial.

Além de rever parentes, foi a oportunidade de aproveitar os últimos dias no Brasil antes de enfrentar a longa travessia internacional.

Na sequência, o casal entrou na Argentina por Paso de los Libres. Segundo Victoria, o processo de imigração foi tranquilo.

Ela explica que os brasileiros podem entrar no país apresentando apenas a carteira de identidade física em bom estado e emitida há menos de dez anos, embora ela e Lucas tenham optado por utilizar o passaporte.

Além disso, quem viaja de carro precisa apresentar a Carta Verde, seguro obrigatório para veículos brasileiros que circulam em países do Mercosul, além do seguro viagem para os ocupantes, CNH física e documentos do veículo.

O que é obrigatório para dirigir na Argentina?

✔️ 2 triângulos de sinalização

✔️ Extintor de incêndio dentro da validade

✔️ Colete refletivo

✔️ Cambão

✔️ Kit de primeiros socorros*

✔️ Documentos impressos do veículo e dos passageiros

✔️ Seguro Carta Verde

❄️ Atenção para Ushuaia:

Entre 15 de maio e 30 de setembro, é obrigatório o uso de pneus de inverno homologados ou pneus com cravos. Dependendo das condições da estrada, as autoridades também podem exigir correntes para neve.

* Alguns itens podem variar conforme a província argentina. Consulte as regras da rota antes de viajar.

Depois da fronteira, a viagem continuou por Córdoba até chegar a Mendoza, cidade famosa pelas vinícolas e pelas paisagens aos pés da Cordilheira dos Andes.

Foi justamente nessa região que vieram algumas das primeiras surpresas. “Já fomos surpreendidos por essas retas imensas e uma estrada muito boa”, relata Victoria.

Paisagem da Cordilheira dos Andes impressiona o casal durante a viagem pela Argentina. - Foto: Reprodução/Instagram
Paisagem da Cordilheira dos Andes impressiona o casal durante a viagem pela Argentina. – Foto: Reprodução/Instagram

Ela conta que também se impressionou com a qualidade das estradas de chão. Embora seja possível fazer a rota utilizando apenas vias asfaltadas, o grupo optou por alguns trechos alternativos, mais próximos das montanhas.

Mesmo assim, a experiência tem sido positiva. “Estamos pegando bastante estrada de terra. Mas como é bastante pedra, é bem compacto. Está tranquilo até agora”, afirma.

Sem roteiro, mas com planejamento

Apesar da fama de improvisada, a viagem segue algumas regras. Victoria explica que ela e Lucas não definem o percurso completo com antecedência, mas planejam cuidadosamente o dia seguinte. “Nós programamos o nosso dia na noite anterior, reservamos hotéis e, na medida que vamos chegando na cidade, está dando super certo até agora”, conta.

Antes de escolher onde dormir, eles pesquisam a distância entre as cidades, verificam a disponibilidade de hotéis e analisam se haverá tempo suficiente para conhecer os passeios previstos.

A ideia é evitar dirigir durante a noite. A internet, aliás, virou uma das principais aliadas da aventura.

Victoria e Lucas aproveitam uma das paradas da viagem em meio às paisagens da Argentina. - Foto: Reprodução/Instagram
Victoria e Lucas aproveitam uma das paradas da viagem em meio às paisagens da Argentina. – Foto: Reprodução/Instagram

O casal instalou uma antena de internet via satélite no carro para ter conexão até mesmo em regiões isoladas. “Com certeza não pode faltar a internet. A gente está num local muito isolado e tem internet, tem Instagram, tem Google para pesquisar”, afirma.

A tecnologia faz diferença porque a dupla já viveu uma experiência completamente diferente. Anos atrás, Victoria e Lucas viajaram até o Peru, também sem roteiro.

Na época, dependiam do sinal de telefonia e chegaram até a dormir dentro do carro. “A gente é bem tranquilo quanto a luxos. Não temos medo de precisar dormir no carro, precisar almoçar banana e água, que nem eu brinco. Então a gente é bem aventureiro”, conta.

Flamingos, neve e baleias

Se a estrada ainda não trouxe grandes perrengues, já proporcionou experiências inesquecíveis. Victoria diz que não consegue escolher uma paisagem favorita.

Mas as montanhas cobertas de neve ocupam um lugar especial na memória. “Ver as montanhas com neve lá atrás e você andando na estrada é muito legal. E a gente ter liberdade de parar, tirar foto, isso é o mais legal para mim”, afirma.

Victoria Martini observa flamingos próximos a um rio durante viagem pela Argentina. Ao fundo, aparecem montanhas e a paisagem típica da região andina. - Foto: Victória Martini
Victoria Martini registra flamingos durante viagem de carro pela Argentina rumo ao Ushuaia. – Foto: Victória Martini

Outro momento marcante aconteceu quando ela avistou flamingos pela primeira vez. “Eu não sabia que a gente teria possibilidade de ver flamingos e a gente viu na rota. Tinha as montanhas lá atrás, eles estavam num riozinho lindo, rosinha tomando água. Foi muito legal”, relembra.

Mas existe um encontro que ela espera há anos. Durante o período mais difícil após descobrir a doença, Victoria fez uma lista de coisas que gostaria de ver ao longo da vida.

Entre elas, está observar baleias. “Baleia é uma delas. Eu quero muito ver baleia. Tenho muita vontade”, afirma.

Uma viagem sobre amor e memória

Victoria e Lucas estão juntos há 11 anos. Segundo ela, o marido não é uma pessoa muito expansiva, mas a forma como tem conduzido a viagem diz muito sobre o relacionamento dos dois. “Ele está dirigindo para mim, vindo comigo. Está representando demais o amor dele. Eu estou sentindo muito isso nos atos que ele está fazendo por mim”, afirma.

Ela diz que a estrada também ensina paciência. São horas dirigindo, momentos de cansaço e saudade de casa. “A gente precisa entender o que é cansaço físico e mental para não começar a discutir por coisas simples”, conta.

Victoria e Lucas Martini estão juntos há 11 anos e agora percorrem de carro milhares de quilômetros rumo ao Ushuaia, na Argentina. - Foto: Monalisa e Jonatas
Victoria e Lucas Martini estão juntos há 11 anos e agora percorrem de carro milhares de quilômetros rumo ao Ushuaia, na Argentina. – Foto: Monalisa e Jonatas

No fim das contas, porém, Victoria acredita que o maior desafio não é a distância. É aproveitar cada momento.

Victoria admite ter medo do futuro e da possibilidade de perder a visão, mas diz que a viagem representa justamente a chance de viver experiências enquanto ainda pode apreciá-las intensamente. “Eu espero lembrar de tudo, guardar tudo na mente para nunca mais esquecer e ter vivido momentos incríveis”, afirma.

Por enquanto, o casal segue rumo ao extremo sul da América do Sul sem saber exatamente onde vai dormir no dia seguinte. A única certeza é que, independentemente da rota escolhida, a viagem já se tornou uma das histórias mais importantes da vida dos dois.

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