O uso de celulares, computadores e tablets nunca foi tão intenso. Seja no trabalho, nos estudos ou no lazer, esse comportamento, cada vez mais comum, acende um alerta entre especialistas devido ao excesso de telas está diretamente ligado ao aumento de problemas oculares em crianças e adultos.
Um levantamento da plataforma Electronics Hub, com base no relatório Digital 2023: Global Overview Report, da DataReportal, revelou que os brasileiros passam cerca de 56% do tempo em que estão acordados diante de telas, o equivalente a aproximadamente nove horas por dia.
Segundo a oftalmologista Rafaela Dotta, do Hospital de Olhos Cuiabá (HOC), a chamada Síndrome da Visão de Computador (CVS) se tornou uma das principais demandas nos consultórios.
“A síndrome é um conjunto de sintomas oculares relacionados ao uso prolongado de dispositivos eletrônicos. Quando ficamos muito tempo em frente às telas, há um esforço contínuo dos olhos e uma redução na frequência do piscar, o que compromete a lubrificação ocular”, explica.
Os sintomas vão além do simples cansaço. Entre os principais estão a astenopia, que é o cansaço visual com sensação de peso nas pálpebras ao final do dia; o olho seco, caracterizado por ardor, vermelhidão, sensação de areia e visão turva; a cefaleia, geralmente na região frontal ou ao redor dos olhos; e a dificuldade de foco, com lentidão ao alternar a visão de perto para longe.
Um dos efeitos mais preocupantes do uso excessivo de telas é o aumento dos casos de miopia entre jovens, um fenômeno que já é considerado global. De acordo com a especialista, dois fatores explicam esse avanço: o esforço constante da visão de perto, que pode levar ao alongamento do olho ainda em desenvolvimento, e a falta de exposição à luz natural.
“A exposição à luz solar estimula a liberação de dopamina na retina, um neurotransmissor que ajuda a controlar o crescimento do olho. Sem atividades ao ar livre, esse freio natural é perdido”, destaca.
Apesar do cenário preocupante, pequenas mudanças na rotina podem fazer grande diferença para a saúde ocular. Entre os hábitos recomendados está a regra 20-20-20, que orienta que, a cada 20 minutos de uso de tela, a pessoa olhe para um objeto a cerca de 6 metros por pelo menos 20 segundos, ajudando a relaxar a musculatura ocular.
Outras orientações incluem lembrar de piscar conscientemente para manter a lubrificação dos olhos, manter o monitor a uma distância de 50 a 60 centímetros, evitar reflexos de luz diretamente na tela e reduzir o uso de dispositivos eletrônicos pelo menos uma hora antes de dormir, para não prejudicar o ciclo do sono.
O acompanhamento com um oftalmologista deve ser feito anualmente, mas alguns sinais indicam a necessidade de antecipar a consulta, como dores de cabeça frequentes, lacrimejamento excessivo e visão embaçada persistente. No caso das crianças, a atenção deve ser redobrada, principalmente quando houver dificuldade na escola ou o hábito de aproximar muito objetos do rosto.