Depoimentos da mãe e do padrasto do bebê Kalebe Josué, de 1 ano e 8 meses, apresentam divergências sobre a origem de ferimentos no corpo da criança, que morreu com sinais de agressão e suspeita de abuso sexual em Campo Grande nesta quinta-feira (30).
O menino foi socorrido no dia 28 de abril, sem sinais vitais, e apresentava múltiplos hematomas, segundo socorristas.
O Primeira Página teve acesso aos depoimentos prestados à Polícia Civil no dia da ocorrência, quando ambos foram encaminhados à delegacia sob suspeita de maus-tratos e abuso sexual. Em um dos pontos que mais chamam atenção, mãe e padrasto dão versões diferentes sobre uma possível queda que teria causado parte das lesões em Kalebe.
A mãe relatou que o filho mencionou ter se machucado dias antes. “O da testa ele tinha me falado. Ele falou que caiu na sala e bateu a cabeça no chão.” Segundo ela, o episódio teria ocorrido no sábado (25).
Já o padrasto apresentou outra versão. “Escorregou no banheiro ontem (27), umas 11h. Eu saí para pegar a toalha e quando voltei ele já tinha caído e machucado a testa.”
Depoimento da mãe
Em depoimento, a mãe afirmou que nunca presenciou o companheiro agredindo o filho. “Nunca. Por isso que eu falo, sempre tratou meu filho bem”, declarou.
Ela também relatou que o padrasto ficava responsável por Kalebe enquanto ela trabalhava. Segundo o relato, o menino permanecia com o padrasto de segunda a sábado, nesse mesmo período.
“Ele fica responsável por Kalebe quando eu saio para trabalhar. Ele fica na casa. Estava ficando essa semana porque ele estava em casa, das 7h até as 15h40, quando eu chego em casa. No domingo eu fico com ele”.
Questionada sobre a parada cardíaca da criança no dia da ocorrência, a mãe disse não saber o que teria causado o quadro.
“Eu acho que pode ser alguma coisa do leite. Porque a única coisa que ele mamou hoje cedo só foi o leite, leite caipira. Ele tomava sempre desse e depois demos leite de caixinha. Aí depois eu pedi de novo leite caipira.”
Sobre os hematomas e possíveis sinais de abuso em Kalebe, ela afirmou não ter notado indícios no corpo do filho.
“Eu só vi o da testa e das costasinhas, mas ele nem me falou nada. O da testa ele tinha me falado. Ele falou que caiu na sala e bateu a cabeça no chão.”
Perguntada sobre quando teria ocorrido a queda, disse não se lembrar. “Nem lembro. Eu estava na hora do meu almoço quando ele me falou, 9h30. O da testa foi sábado (25). O das costas não sei, eu vi ontem (27), mas ele não me falou nada.”
Em relação às lesões nas partes íntimas, afirmou não ter visto nada. “Eu troco ele. Na verdade, quem trocou ele ontem foi meu esposo também. De manhã ele falou que deu o banho e depois que deu o banho ele melhorou e já estava brincando.”
Questionada sobre as drogas encontradas na residência, a mãe disse que não faz uso.
“Eu só bebo e fumo cigarro. Eu não sou viciada em cigarro. Fumo quando eu tenho.”
Ao final, ela acrescentou ainda que jamais imaginaria que o esposo pudesse fazer algo com o filho.
“Não tenho conhecimento, juro pela minha vida que não. Eu nunca nem imaginaria que ele faria isso. Se ele tivesse envolvimento, eu nunca imaginava.”
Depoimento do padrasto
No mesmo dia, o padrasto negou ter cometido qualquer tipo de agressão ou abuso à polícia. Ele disse que considerava Kalebe como um filho.
“Ele é meu enteado, desde quando eu conheci a mãe dele, e ele fica que nem um filho para mim, que eu não tenho filho, e desde quando eu casei, eu cuido dele como se fosse meu filho.”
Sobre o período em que ficava sozinho com o menino, afirmou: “Da manhã até umas 15h. O horário que a mãe dele vai trabalhar”.
O delegado então pede para que o padrasto detalhe o que aconteceu no dia em que Kalebe foi socorrido. Ao que ele relata:
“Minha mulher estava se arrumando para trabalhar e eu estava deitado, descansando. Ela avisou para mim que já estava saindo e deixou uma mamadeira com ele. Ele estava mamando e quando deu umas 6h50 eu fui pegar ele para tomar banho, ele já estava todo com leite na cara, tinha vomitado e eu fui pegar ele e ele já estava meio mole já. Aí eu só joguei água no corpo dele e liguei para o Samu. Eu liguei para a minha mulher primeiro, falei para ela o que estava acontecendo, aí ela falou que estava vindo, e a polícia também. Aí eu liguei para o Samu, eles só pediram para mim continuar fazendo a massagem. Quando a polícia chegou, eu já estava com o Kaleb no colo fazendo a massagem e passei para eles, que deram continuidade.”
Sobre os hematomas, afirmou:
“Eu só vi uma mancha nas costas dele, tinha um roxão, e na testa foi por causa que ele caiu. Escorregou no banheiro ontem (27), umas 11h. Liguei para a mãe dele e avisei. Ele escorregou no banheiro, estava tomando banho sozinho. Eu saí para pegar a toalha dele no varal e quando voltei ele já tinha caído e machucado a testa.”
Já sobre as lesões nas partes íntimas, respondeu apenas que nunca tinha visto e que: “Não sei nem o que falar.”
E acrescentou:
“Ele tem um probleminha dele mesmo, igual a mãe dele, que quando fica nervoso ele fica com umas manchinhas na perna, na virilha, roxo, com umas bolinhas. Mas o roxo que eu vi nas costas dele hoje não parecia igual, não. Esse roxo era grande, era maior.”
O padrasto também afirmou que a criança já havia apresentado mal-estar anteriormente. “Estava muito fraco, não conseguia nem levantar.” Segundo ele, o menino chegou a ser levado a uma UPA, mas não foi atendido devido à lotação.
Ele disse ainda que nunca agrediu a criança, mas relatou já ter visto a mãe bater no filho. “É forte não. Só a educação. Um tapa.”
Sobre o uso de drogas, afirmou que ele e a mãe fizeram uso na noite anterior.
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O caso
Kalebe Josué morreu nesta quinta-feira (30), após ter sido socorrido no dia 28 sem sinais vitais e encaminhado à Santa Casa com diversos hematomas e suspeita de abuso sexual.
A mãe, de 31 anos, e o padrasto, de 21, foram presos em flagrante no dia do caso e passaram por audiência de custódia, tendo a prisão preventiva mantida.
De acordo com os socorristas, a criança apresentava ferimentos na cabeça, que se estendiam até a região dos olhos, além de hematomas nas costas, pernas e órgãos genitais. Algumas lesões não eram recentes. Também havia indícios de abuso sexual.
A polícia foi acionada após denúncia, e, ao ser questionada, a mãe relatou que saiu de casa por volta das 6h, deixando o filho com o padrasto. O homem afirmou que a criança estava mamando e que, por volta das 6h40, ao dar banho, percebeu que o bebê não respirava.
Ele então ligou para a companheira, que retornou ao local em um carro de aplicativo, e acionou o Samu.
A perícia encontrou manchas de sangue no cobertor da criança e na cama do casal. Também foi localizada maconha na residência.