O ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, preso por matar a tiros o servidor público Roberto Carlos Mazzini, não possui porte e documentação da arma calibre .38, utilizada no crime, que ocorreu na tarde de terça-feira (24), em Campo Grande. A informação foi confirmada pelo delegado Danilo Mansur, responsável pela investigação.
Câmeras de segurança mostram sequência do crime em que fiscal tributário foi morto a tiros pelo ex-prefeito Alcides Bernal em Campo Grande
Ao Primeira Página, Mansur afirmou que Bernal, desde que foi preso, alegou que possuía a documentação do armamento, bem como autorização para o porte. Entretanto, até o momento, não houve comprovação por parte da defesa do ex-prefeito.
Por isso, foi solicitado à Polícia Federal (PF) informações para saber se ele possuía registro e autorização para uso da arma, sendo confirmado que não há.
“Ele teve no passado, em 2016, mas não está mais ativo e correspondia a outro armamento”, destacou.
E a tese de legítima defesa?
Ao ser questionado pela reportagem, o delegado destacou que aguarda os laudos periciais, para juntar as provas e poder dar um veredito sobre o ocorrido.
“A princípio houve uma desconfiança de que poderia haver legítima defesa, porque o Bernal falou aquilo, mas nas imagens dá para ver que ele já entra armado e aponta em direção à vítima. […] Essa tese, se a gente for olhar por esse viés, é difícil, mas pedi para a perícia analisar bem essas imagens”, pontuou.
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Nesta sexta-feira (27), o chaveiro que presenciou toda a cena será novamente ouvido pelo delegado, uma vez que, agora, a investigação possui acesso às imagens e conseguiu entender parte da ação.
O momento em que Roberto é atingido e cai ao chão não foi gravado, considerando que o fato ocorreu em um ponto cego da residência. A defesa de Bernal alega a existência de mais vídeos, porém, o delegado nega.
“Se eles tiverem essas imagens que tão dizendo ter, seria ótimo para a Polícia Civil, pois isso ajudaria a elucidar melhor o caso. Porém, até o momento, o que nós temos são apenas os vídeos já divulgados pela imprensa”, destacou.
Trecho em que ex-prefeito Alcides Bernal fala sobre legítima defesa (Vídeo: Polícia Civil)
O que alegou Alcides Bernal?
Em depoimento no dia do crime, o ex-prefeito revelou que a arma utilizada nos fatos foi um presente de um militar recebido em 2013, época em que era administrador da capital e sofria constantes ameaças. Ele afirmou possuir o registro e ter realizado testes de capacitação técnica para o porte, porém, os documentos nunca foram apresentados à polícia. Veja o trecho da declaração abaixo:
Trecho em que ex-prefeito Alcides Bernal fala sobre porte de arma (Vídeo: Polícia Civil)
A reportagem questionou a defesa de Alcides Bernal quanto à informação dada pela polícia sobre o armamento, entretanto, não houve retorno até a publicação desta matéria.
O caso
Pelas informações levantadas, a vítima chegou ao imóvel às 12h56 de terça-feira (24), acompanhada de um chaveiro, uma vez que havia comprado a mansão em um leilão, e entrou na residência após a abertura do portão. Os dois seguiram até a área interna da casa.
Quase uma hora depois, às 13h44, Bernal foi até o local após ser avisado pela empresa de monitoramento de que havia pessoas dentro do imóvel. Ele chegou dirigindo uma caminhonete, estacionou e desceu já portando uma arma de fogo, conforme o boletim de ocorrência.
Ex-prefeito Alcides Bernal na saída da audiência de custódia que decretou sua prisão preventiva após assassinato de fiscal tributário em Campo Grande (Foto: Sérgio Saturnino)
As imagens mostram o momento em que o ex-prefeito entra na residência e vai diretamente em direção à vítima. Segundo os relatos colhidos no local, os dois se encontraram na garagem, onde houve uma breve discussão.
Na sequência, Bernal sacou um revólver calibre .38 e fez dois disparos, que atingiram Roberto Carlos Mazzini na lateral do abdômen e na região das costas, sendo que um deles atravessou o corpo.
Roberto Carlos Mazzini, fiscal tributário estadual morto pelo ex-prefeito Alcides Bernal (Foto: Reprodução/Redes sociais)
O chaveiro que acompanhava a vítima percebeu a chegada do ex-prefeito e conseguiu sair do local antes dos disparos, mas relatou à polícia que presenciou parte da ação. Em depoimento, afirmou que a vítima não teve tempo de reagir ou esboçar qualquer defesa.
Bernal se apresentou na 1ª Delegacia de Polícia dizendo que tinha atirado contra um homem que invadiu a sua residência. A equipe policial foi ao local e encontrou a vítima sendo socorrida pelo Corpo de Bombeiros, porém ela não resistiu aos ferimentos.
A arma utilizada no crime foi apreendida, contendo duas munições deflagradas e outras intactas, e as imagens do sistema de segurança foram recolhidas para análise pericial. Foi dada voz de prisão a Bernal, que foi encaminhado à Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) Cepol.
Após a análise dos elementos colhidos no local, como depoimentos, imagens e apreensão da arma, a delegada Karolina Souza Pereira Bernardes, da Depac Cepol, decretou a prisão em flagrante de Alcides Bernal por homicídio qualificado pela traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido.
No auto de prisão, destacou que há indícios suficientes de autoria e materialidade do crime, com base nas provas reunidas durante o atendimento da ocorrência. O político passou por audiência de custódia no dia seguinte, tendo a prisão convertida em preventiva. Ele segue detido no Presídio Militar Estadual da capital, uma vez que também é advogado.