Tragédia que matou 154 pessoas em MT completa 20 anos; veja o que mudou nos voos

Há exatos 20 anos, uma colisão no céu de Mato Grosso terminou em uma das maiores tragédias da história da aviação brasileira. Em 29 de setembro de 2006, o voo 1907 da Gol caiu em uma região de floresta após se chocar, no ar, com um jato Legacy. As 154 pessoas que estavam no Boeing morreram.

Duas décadas depois, familiares ainda convivem com a ausência de quem estava naquele voo e com os desdobramentos judiciais do caso. Ao mesmo tempo, a tragédia expôs fragilidades no sistema aéreo e foi seguida por mudanças e investimentos em segurança, comunicação e controle do espaço aéreo brasileiro.

Tragédia com o voo 1907, da Gol, completa 20 anos em 2026. Foto: Arquivo pessoal

O Boeing 737-800 havia partido de Manaus (AM) com destino ao Rio de Janeiro (RJ), com escala prevista em Brasília (DF). Durante o trajeto, sobre Mato Grosso, ocorreu a colisão com o Legacy 600, que seguia em sentido contrário.

O impacto danificou o Boeing, que caiu em uma área de mata no município de Peixoto de Azevedo. Não houve sobreviventes entre as 154 pessoas a bordo. O Legacy também sofreu danos, mas conseguiu pousar no Campo de Provas Brigadeiro Velloso, conhecido como Base Aérea da Serra do Cachimbo, no Pará. Os sete ocupantes sobreviveram.

O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado em 2008, apontou uma combinação de fatores relacionados à operação do Legacy e ao controle de tráfego aéreo. O documento registra ainda que o transponder do jato não estava operando no momento da colisão.

Tragédia com o voo 1907, da Gol, completa 20 anos em 2026. Foto: Corpo de Bombeiros de Sinop (MT)
Tragédia com o voo 1907, da Gol, completa 20 anos em 2026. Foto: Corpo de Bombeiros de Sinop (MT)

Duas décadas de saudade

Para quem perdeu alguém naquele 29 de setembro, a passagem de 20 anos não apagou as lembranças.

Rosane Gutjahr perdeu o marido, o empresário Rolf Gutjahr. Ao relembrá-lo, ela fala de um homem dedicado à família e às pessoas que estavam ao redor.

“Era um pai presente, era um marido presente, era um ser humano com as demais pessoas presente, era uma pessoa que se preocupava com o próximo, às vezes mais do que com ele mesmo”, contou.

A filha, Luiza Wills, também carrega a saudade e diz que, duas décadas depois, permanece o sentimento de indignação diante dos desdobramentos do caso.

“A tristeza vai ser para sempre, a saudade vai estar sempre presente. Mas, da situação, é indignação. Não tem outra palavra que descreva melhor”, afirmou.

Acidente mobilizou uma das maiores operações de busca

A localização dos destroços em uma região remota de Mato Grosso tornou a operação especialmente complexa. Militares precisaram abrir clareiras na floresta para permitir a atuação dos helicópteros e o acesso das equipes ao local.

Segundo a Força Aérea Brasileira (FAB), a missão de busca e resgate durou 54 dias, até a identificação da 154ª vítima. A operação foi posteriormente descrita pela FAB como a maior ação de busca e resgate já realizada no país.

Tragédia com o voo 1907, da Gol, completa 20 anos em 2026. Foto: Corpo de Bombeiros de Sinop (MT)
Tragédia com o voo 1907, da Gol, completa 20 anos em 2026. Foto: Corpo de Bombeiros de Sinop (MT)

O que mudou na aviação

As consequências da tragédia ultrapassaram a investigação sobre a colisão. O acidente ocorreu no início de um período de forte crise no setor aéreo brasileiro, quando problemas envolvendo o controle do espaço aéreo ganharam dimensão nacional.

Nos anos seguintes, houve investimentos em infraestrutura, equipamentos e pessoal. Material histórico do próprio Cenipa registra, por exemplo, melhorias no sistema de controle do espaço aéreo e aumento do número de controladores: eram 2.824 na época do acidente e 4.230 em 2016. Também foram adquiridos equipamentos para treinamento dos profissionais.

Paulo Rogério Licati, porta-voz da Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil (Abrapac), afirma que também houve avanços tecnológicos e mudanças na rotina dos profissionais.

Entre elas estão o uso crescente de informações eletrônicas no lugar das tradicionais cartas em papel, melhorias na comunicação e nos sistemas de vigilância, além da utilização de tecnologias por satélite.

“Foi investido muito dinheiro em equipamentos, como radares e comunicação por voz. Hoje também já existe até comunicação via satélite”, explicou Licati.

Tragédia com o voo 1907, da Gol, completa 20 anos em 2026. Foto: Corpo de Bombeiros de Sinop (MT)
Tragédia com o voo 1907, da Gol, completa 20 anos em 2026. Foto: Corpo de Bombeiros de Sinop (MT)

Segundo ele, as regras relacionadas às jornadas das tripulações também passaram por alterações ao longo dessas duas décadas, com restrições maiores às sequências de trabalho durante a madrugada e treinamentos periódicos.

Tragédia deixou marcas na aviação brasileira

O acidente também colocou sob discussão as condições de funcionamento do sistema de controle aéreo brasileiro. Nos meses seguintes à queda do voo 1907, movimentos de controladores contribuíram para atrasos e cancelamentos e para o período que ficou conhecido como crise ou apagão aéreo. A própria Anac relacionou o início dessa mobilização ao período posterior ao acidente.

Para Gabriela Barbosa Pereira, prima de Alexandre Barbosa dos Santos, uma das 154 vítimas, recordar a tragédia duas décadas depois também significa desejar que as lições daquele acidente impeçam novas famílias de enfrentar a mesma dor.

“Eu espero, antes de tudo, que as pessoas passem a respeitar o que é o espaço aéreo brasileiro e que, para todos aqueles estrangeiros que vêm voar no nosso céu, sejam colocadas de forma muito clara as regras”, afirmou.

Vinte anos depois, a história do voo 1907 permanece dividida entre dois legados: de um lado, os avanços e discussões sobre segurança provocados por uma das maiores tragédias aéreas do país; de outro, a saudade de 154 pessoas que embarcaram em Manaus naquele 29 de setembro de 2006 e nunca chegaram ao destino.

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