Sem tratamento, menino de MT com paralisia cerebral e autismo regride e perde evolução, denuncia mãe

Uma mãe que luta na Justiça para garantir o tratamento do filho afirma que a criança regrediu no desenvolvimento após ter o plano de saúde cancelado e as terapias suspensas. Segundo a mãe de Gael*, de 8 anos, morador de Sinop (MT) diagnosticado com paralisia cerebral, síndrome de West e transtorno do espectro autista (TEA), dependia do acompanhamento contínuo para evoluir e ganhar mais independência no futuro.

Diagnosticado ainda na primeira infância, o menino precisa de cuidados que não admitem pausa. A paralisia cerebral compromete seus movimentos e exige fisioterapia neurológica contínua para preservar a mobilidade e evitar regressões.

A síndrome de West é uma forma grave de epilepsia infantil, que provoca crises e exige acompanhamento médico especializado e medicação de uso permanente. O TEA, por sua vez, demanda terapias específicas para o desenvolvimento da comunicação, do comportamento e da autonomia.

Gael*, com paralisia cerebral – Foto: Arquivo Pessoal

Na prática, isso significa um tratamento multidisciplinar e intensivo: fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia, acompanhamento médico e medicação de uso contínuo, além do trabalho diário da própria família. Cada interrupção representa um retrocesso difícil de recuperar no desenvolvimento da criança.

Segundo a mãe, a família contesta cobranças feitas pela operadora e afirma que nunca se recusou a pagar o valor considerado justo. De acordo com a mãe, o plano começou custando R$ 299, mas, já no primeiro reajuste, passou para R$ 539.

“Eu nunca me recusei a pagar o que fosse justo. Se tivessem me mandado o boleto com o valor de quando o plano foi cancelado, eu iria pagar, porque estava dentro da minha realidade”, relatou.

Ela afirma que os aumentos foram abusivos desde o início, mas ela manteve os pagamentos por causa da necessidade do filho. O acompanhamento, principalmente com terapias, era visto pela família como essencial para que a criança pudesse ter uma vida com menos dependência.

“Eu penso no futuro, que eu não vou estar aqui para a vida toda. Então, tudo que a gente puder fazer para ajudar ele a ter uma independência, a gente tenta fazer”, disse.

Tratamento interrompido

A mãe afirma que o problema começou em julho de 2023, quando a clínica responsável pelos atendimentos informou que não poderia mais continuar com as terapias, porque não recebia pagamentos da operadora do plano de saúde desde novembro do ano anterior. Até aquele momento, segundo ela, a família não sabia que havia problemas no atendimento.

Depois disso, a família entrou com ação judicial. Mesmo assim, segundo a mãe, o processo se arrasta há anos, com decisões de bloqueio de valores e tentativas de reativação do plano, mas sem que o tratamento fosse regularizado de forma definitiva.

Gael* possui paralisia cerebral, aguarda há quase três anos pelo cumprimento integral do tratamento garantido pela Justiça. - Foto: Arquivo Pessoal
Gael*., criança com paralisia cerebral. – Foto: Arquivo pessoal

Ela relata que chegou a continuar pagando mensalidades de R$ 539, mas parou após não receber uma solução sobre a migração do plano e diante da falta de atendimento. Com isso, o plano foi suspenso e, segundo a mãe, o nome dela ainda foi incluído no Serasa.

Boletos de até R$ 1,7 mil

Ainda conforme o relato, em janeiro deste ano, o plano foi cancelado novamente após a família receber um boleto de cerca de R$ 1,1 mil. A mãe afirma que questionou o valor, já que a mensalidade anterior era de R$ 539, mas diz não ter recebido uma justificativa coerente.

Mais recentemente, após nova decisão judicial para reativação do plano, a família afirma ter recebido outra cobrança, desta vez de aproximadamente R$ 1,7 mil.

“A Supermed faz do jeito que quer; manda uma cobrança abusiva. O processo fica nessa, não vai para frente. E nisso o meu filho fica sem o tratamento adequado, que é o acompanhamento com pediatra, ortopedista, oftalmologista e neurologista”, desabafou.

Criança precisa de consultas, exames e terapias

A mãe afirma que, por causa da instabilidade no plano, passou a buscar parte dos exames pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas nem todos foram feitos.

Segundo ela, o filho também precisa de exames de rotina solicitados pela neurologista, muitos deles de alto custo. A família afirma que, sem o acompanhamento adequado, a criança perdeu parte da evolução conquistada ao longo dos anos.

“Meu filho retrocedeu muito no desenvolvimento dele. Foram anos sem as terapias adequadas”, relatou.

A mãe diz que as terapias estão suspensas, mesmo após pedido judicial de bloqueio, porque não teria sido encontrado dinheiro nas contas da operadora. Enquanto isso, a criança segue sem o tratamento completo.

“Para mim é muito triste ver que ele tinha uma evolução muito boa e depois que aconteceu isso tudo ele regrediu. Hoje, meu filho era para, às vezes, até estar andando, e isso não está acontecendo por falta das terapias e do acompanhamento adequado”, disse.

“Desde que se iniciou, é um desgaste físico e emocional grande. Meu filho retrocedeu muito no desenvolvimento dele, porque foram anos sem as terapias adequadas. E aí estamos aí, aguardando que a justiça seja feita”, afirmou.

‘Estou muito cansada’

A mãe afirma que o desgaste causado pela situação afetou também a saúde emocional dela. Segundo o relato, a luta pelo tratamento levou a um início de depressão.

E eu só quero que o juiz dê a sentença logo para que isso acabe quanto antes, porque eu já estou muito cansada disso tudo, sabe. Eu passei por um início de depressão por conta de tudo isso, porque para mim é muito triste ver que ele regrediu. Hoje meu filho era para estar andando, e isso não está acontecendo por falta das terapias e do acompanhamento adequado”, afirmou.

A família aguarda uma decisão definitiva da Justiça para garantir a retomada do tratamento e a regularização do plano de saúde da criança.

Eu penso no futuro em que eu não vou estar aqui para a vida toda, então tudo o que a gente puder fazer ajudá-lo a ter uma independência, a gente tenta fazer. E as operadoras de saúde estão roubando o que é de direito do meu filho no tratamento dele”, completo.

*Nome fictício para não identificar a criança a pedido da família

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