Quase um terço dos motociclistas que morreram em acidentes de trânsito em Cuiabá não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH). O dado faz parte de um levantamento da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob), divulgado neste mês, e reforça um dos fatores associados ao elevado número de mortes envolvendo motos na capital.
Em 2024, os motociclistas responderam por 69% das mortes no trânsito da cidade. Das 104 vítimas fatais registradas nas ruas e avenidas da capital, 72 estavam em motocicletas. A maioria dos acidentes ocorreu durante a noite e a madrugada, principalmente aos sábados e domingos.
Um acidente que mudou a rotina
O motoboy Éder da Silva Barbosa conhece essa realidade de perto. Ele saía para fazer a primeira entrega do dia quando sofreu um acidente em um cruzamento, no início deste ano.
Segundo ele, seguia pela via preferencial quando um carro avançou sem respeitar sua passagem. “Eu estava indo fazer a primeira entrega do dia. A preferência era minha, mas o carro invadiu o cruzamento. Não deu tempo de frear e acabei batendo na frente dele”, lembrou.
Éder ficou 15 dias afastado para se recuperar. Como depende das entregas para sustentar a família, voltou ao trabalho mesmo ainda sentindo dores.
Um problema que vai além da habilitação
Além do alto número de mortes, o levantamento aponta outro dado preocupante: quase um terço dos motociclistas que morreram em acidentes não possuía habilitação.
Para a secretária de Mobilidade Urbana de Cuiabá, Francyanne Lacerda, a vulnerabilidade do motociclista, somada a comportamentos de risco, explica parte do cenário.
“A própria motocicleta já expõe o condutor. Em uma queda, mesmo em baixa velocidade, dificilmente ele sai sem lesões. Quando isso se soma ao excesso de velocidade, ao consumo de bebida alcoólica e a outras imprudências, o risco de acidentes fatais aumenta”.
Para o instrutor de autoescola Romário Soares Brito, o problema não está apenas na fiscalização. Segundo ele, a formação dos motociclistas ainda está distante da realidade enfrentada diariamente nas ruas.
“O que é ensinado durante a formação é muito aquém da realidade do trânsito. No dia a dia, o motociclista enfrenta motoristas apressados, falta de respeito e situações que não são simuladas durante o aprendizado”, pontuou.
Outros comportamentos também contribuem para os acidentes, como circular em locais proibidos, desrespeitar a sinalização e mudar de faixa sem acionar a seta.
Acidentes pressionam hospitais
As consequências desse cenário também são sentidas dentro dos hospitais. O Hospital Municipal de Cuiabá (HMC), referência em urgência e trauma na região metropolitana, recebe diariamente vítimas de acidentes de trânsito.
Segundo o ortopedista Vitor Spalatti, sete em cada dez leitos da ortopedia são ocupados por pacientes acidentados.
“Estamos preparados para atender esses pacientes, mas o aumento significativo dos acidentes exige mais recursos, mais leitos e, muitas vezes, um tempo maior de internação, principalmente porque esses pacientes chegam sem condições de serem operados imediatamente”, afirmou.
O médico explica que os acidentes envolvendo motocicletas costumam resultar em lesões complexas.
“Na maioria das vezes, esses pacientes apresentam mais de uma fratura, atingindo pernas, braços, pelve e outras regiões do corpo. Isso interfere na recuperação, dificulta a programação das cirurgias e compromete todo o processo de reabilitação”.
Além do sofrimento das vítimas, a gravidade das lesões prolonga a ocupação dos leitos e aumenta a pressão sobre o sistema público de saúde.

Uma nova forma de pilotar
Depois do susto, Éder voltou às ruas mais atento aos riscos.
Hoje, evita trafegar entre os carros, mantém distância segura dos outros veículos e afirma que passou a priorizar a própria segurança.
“Agora eu ando com cuidado redobrado. Procuro manter distância dos carros, evito passar em corredores apertados e penso primeiro em voltar para casa. No trânsito, qualquer segundo pode mudar a vida da gente”, disse.
-
Ex-delegado é condenado por cobrar propina de presos em troca de cela com ar-condicionado e liberdade em MT
-
Prefeitura convoca aprovados em seletivo da saúde; confira próximos passos