Por que a tilápia domina a piscicultura no Brasil?

De origem milenar, cultivada no rio Nilo, na África, a tilápia conquistou o Brasil e hoje domina os viveiros espelhados pelo país. Mas o que explica esse sucesso entre produtores? A resposta passa por um conjunto de fatores que vão da previsibilidade produtiva à alta adaptação ao manejo nos tanques, tornando a espécie uma das mais estratégicas da piscicultura brasileira.

Em propriedades de tanque escavado a pesca da tilápia com rede é feita todos os dias. – Foto: TVCA

Atualmente, a tilápia é a espécie mais cultivada no país, representando entre 63,9% e 68,9% da produção de peixes. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil  produziu cerca de 499 milhões de quilos em 2024, sendo o quarto maior produtor mundial. 

Estados como o Paraná lideram o ranking, enquanto Mato Grosso também se destaca, com mais de 3,3 milhões de quilos produzidos, com Campo Verde (MT) como município com maior produção no estado. 

Mas não é só o volume que chama atenção. A tilápia oferece ao produtor algo considerado raridade no campo: a previsibilidade. Segundo o diretor de piscicultura, Hebert Carli Junior, o ciclo produtivo é um dos grandes diferenciais.

“Ela se destaca pela genética que ela nos traz e pela resposta à nutrição de qualidade. Consigo colocar um peixe para engordar e ter certeza que em seis meses ele vai estar pronto. Isso faz com que eu tenha daqui seis meses o peixe na planta frigorífica e que tenha aquela equipe toda sem ficar ociosa”, comentou Hebert em entrevista para o programa Mais Agro, da TV Centro América.

Essa regularidade possibilita uma produção escalonada ao longo do ano, evitando períodos de estagnação tanto nos viveiros quanto na indústria. Diferente de espécies nativas, como o tambaqui e pintado, a tilápia garante um fluxo contínuo de produção.

Tanque de
Os tanques escavados contam com equipamentos para potencializar a presença de oxigênio na água. – Foto: TVCA

Requer planejamento

Na prática, isso se traduz em planejamento. Em propriedades com alta tecnologia, é possível criar cerca de 3,5 peixes por metro quadrado, chegando a aproximadamente 3 quilos por metro no momento do abate. Em sistemas mais intensivos, como tanques-rede instalados em rios, a produtividade é ainda maior.

“No tanque rede a gente trabalha com 25 a 30 kg por metro cúbico. Você está no rio, onde a água passa pelo tanque. Com essa troca, melhora a oxigenação. Se eu tenho mais oxigênio, tenho capacidade de criar mais num menor espaço”, explicou o diretor. 

O controle do oxigênio, aliás, é um dos fatores-chave para a quantidade de peixes nos espaços. Em tanques escavados, o uso de aeradores permite aumentar a produção em até 1 quilo por metro. Já em sistemas com fluxo contínuo de água, essa limitação é menor, ampliando a capacidade produtiva.

Outro ponto importante é a segurança nos primeiros estágios de vida. Nos tanques com peixes menores, telas de proteção evitam ataques de predadores. Após atingirem cerca de 90 gramas, os peixes são transferidos para tanques maiores, onde o risco é menor. 

Veja um trecho da reportagem especial do Mais Agro:

Impacto da quaresma

Além da eficiência produtiva, o mercado também favorece a tilápia, especialmente em períodos como a quaresma, quando o consumo de peixe aumenta significativamente. Nesse intervalo, os produtores chegam a vender de 30% a 40% de toda a produção anual.

Apesar da demanda aquecida, o planejamento impede oscilações bruscas na produção.

“A gente não pode produzir peixe só para a quaresma, a gente tem que ter escala. Eu não posso deixar um tanque vazio esperando dar os seis meses antes da quaresma para pôr peixe”, contou Hebert. 

Os preços também seguem a lógica da oferta e procura. Durante a quaresma, o quilo pode chegar entre R$ 40 e R$ 45 no mercado industrial, enquanto no restante do ano varia de R$ 35 a R$ 40.

Combinando crescimento rápido, alta produtividade por área, adaptabilidade e um mercado consolidado, a tilápia tem sido um garantidor de produtividade para muitos psicultores.

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