O El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, já foi confirmado e apresenta grandes chances de atingir intensidade suficiente para ser classificado como um Super El Niño. No Brasil, seus efeitos variam conforme a região e podem intensificar chuvas, enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos, ampliando os impactos sobre a saúde pública.
Um dos principais efeitos associados ao Super El Niño é o aumento das chuvas em parte do país, favorecendo enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra.
A infectologista Viviane Hessel explica que, além dos prejuízos materiais, esses eventos criam condições favoráveis para a transmissão de doenças infecciosas, como leptospirose, hepatite A e infecções gastrointestinais.
“No caso da leptospirose, a bactéria pode penetrar pela pele durante o contato com água contaminada. Quando as famílias precisam deixar suas casas e buscar abrigo temporário, aumentam também os desafios relacionados ao acesso à água potável, alimentação, medicamentos e atendimento de saúde. Além disso, ambientes coletivos facilitam a transmissão de doenças respiratórias e podem contribuir para a ocorrência de surtos, especialmente entre as populações mais vulneráveis”, ressalta.
A especialista também alerta que já existem evidências científicas de que o aumento das temperaturas pode favorecer a disseminação de genes de resistência entre bactérias, tanto na comunidade quanto em ambientes hospitalares.
“Dependendo do perfil de resistência, a bactéria deixa de responder aos antibióticos habitualmente utilizados, reduzindo as opções terapêuticas disponíveis e dificultando o manejo clínico do paciente”, explica.
Ondas de calor também preocupam

Nas regiões Norte e Nordeste, por outro lado, o El Niño costuma provocar redução significativa das chuvas e aumento das temperaturas.
Segundo Viviane Hessel, os impactos do calor extremo também são percebidos na rotina dos serviços de saúde.
“Os períodos prolongados de temperaturas elevadas favorecem tanto o agravamento de problemas respiratórios relacionados à piora da qualidade do ar quanto o aumento das internações por desidratação, principalmente entre idosos. São situações que tendem a se tornar mais frequentes à medida que os episódios de calor extremo se intensificam”, afirma.
De acordo com a infectologista, fatores sociais também influenciam diretamente a capacidade de enfrentar os impactos provocados pelo fenômeno climático.
“Além dos extremos de idade, como idosos e recém-nascidos, pessoas com doenças crônicas, desnutrição ou em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica tendem a sofrer consequências mais graves, com maior necessidade de hospitalização e maior risco de complicações”, completa.
Super El Niño
Os principais modelos climáticos internacionais indicam que o Oceano Pacífico Equatorial poderá registrar um aquecimento excepcional nos próximos meses, cenário capaz de alterar o regime de chuvas, intensificar ondas de calor, aumentar o risco de secas e enchentes e provocar reflexos na agricultura, na economia e na saúde pública.
As projeções do Climate Forecast System (CFS), desenvolvido pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), passaram a simular valores próximos de +4,8°C na região conhecida como Niño 3.4, enquanto a média permanece acima de +4°C durante o fim de 2026.
Para efeito de comparação, um evento passa a ser considerado muito forte, popularmente chamado de Super El Niño, quando as anomalias da temperatura da superfície do mar permanecem próximas ou superiores a +2°C durante vários meses consecutivos.
Quando o aquecimento do Pacífico atinge níveis extremos e permanece por um longo período, aumenta a probabilidade de eventos climáticos severos, como:
- ondas de calor mais intensas;
- secas prolongadas;
- chuvas extremas;
- enchentes;
- deslizamentos;
- aumento do risco de queimadas.