o peixe ‘indestrutível’ que está se espalhando pelo Brasil

O bagre-africano (Clarias gariepinus) é um peixe que foge do padrão. Com corpo alongado, semelhante ao de uma enguia, e alta resistência, a espécie reúne características que explicam sua rápida adaptação em diferentes ambientes, inclusive no Brasil.

Na natureza, esse bagre pode atingir tamanhos impressionantes. Adultos costumam medir entre 1 e 1,5 metro, mas alguns indivíduos já ultrapassaram 1,7 metro de comprimento e chegaram a pesar até 60 quilos.

O peixe que sobrevive fora d’água e ameaça espécies no Brasil – Foto: Reprodução.

Na África, ele figura entre os maiores peixes de água doce, disputando espaço com espécies gigantes de grandes rios.

Corpo feito para sobreviver

O formato do bagre-africano revela muito sobre sua estratégia de vida.

  • Corpo longo e esguio, que facilita a movimentação em diferentes ambientes
  • Cabeça achatada e óssea, ideal para explorar o fundo
  • Boca larga, capaz de engolir presas variadas
  • Quatro pares de “bigodes” (barbelas), que funcionam como sensores

Mas o grande diferencial está escondido: ele possui órgãos respiratórios acessórios, formados por estruturas modificadas das brânquias. Isso permite que o peixe respire oxigênio diretamente do ar.

Um peixe que não depende da água

Essa adaptação faz com que o bagre-africano sobreviva onde poucos conseguem.

Ele tolera águas com pouco oxigênio, ambientes poluídos e até períodos fora da água. Em condições extremas, pode permanecer vivo em lama úmida e mais impressionante, se deslocar rastejando até encontrar outro local com água.

O biólogo Henrique Abrahão Charles explica que essas características ajudam a entender por que a espécie se tornou um problema em diferentes regiões do Brasil.

Segundo ele, o peixe foi introduzido no país com interesse na pesca esportiva, por ser forte e resistente durante a captura. No entanto, o sabor não conquistou a maioria dos brasileiros.

“O bagre-africano é muito bom de briga, mas o sabor não agradou tanto. Tem gente que diz que o filé é melhor, mas ainda assim não caiu no gosto popular”, afirma. Veja no vídeo abaixo:

O maior alerta, porém, está no comportamento alimentar. “É um peixe extremamente voraz. Ele come de tudo: outros peixes, anfíbios, répteis e até pequenos mamíferos. Já encontraram rato dentro do estômago dele”, destaca.

Além disso, o biólogo explica que o bagre-africano tem alta capacidade de sobreviver em condições extremas, já que consegue viver em ambientes poluídos ao captar oxigênio diretamente da atmosfera.

Ele também destaca que o peixe é capaz de se deslocar fora da água, rastejando entre poças, subindo pedras e avançando por diferentes áreas, principalmente em períodos de chuva.

Com essas características, a espécie se espalha com facilidade e alcança novos ambientes rapidamente, o que dificulta qualquer tentativa de controle.

Na avaliação do especialista, o cenário já é irreversível, e a erradicação do bagre-africano no Brasil não é mais uma possibilidade.

Diante disso, ele aponta que incentivar o consumo pode ser uma das alternativas para reduzir o impacto da espécie, já que, na prática, o controle populacional dependeria da retirada desses animais do ambiente.

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