Cerca de 200 manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocupam, desde a manhã desta terça-feira (13), a sede regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Cuiabá. Eles reivindicam avanços na reforma agrária, entre eles a conclusão do processo de desapropriação da Fazenda Santa Cecília I e II, localizada em Nova Olímpia (MT).
Segundo o movimento, mais de 500 famílias de cinco acampamentos aguardam há anos por respostas do Governo Federal. O MST afirma que há áreas com processos considerados avançados, mas que seguem sem definição prática para assentamento das famílias.
Em entrevista ao Primeira Página, o coordenador nacional do MST em Mato Grosso, Valdeir Souza, a ocupação não tem prazo para terminar e deve continuar até uma resposta concreta por parte do Incra e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).
“Vamos seguir até que a gente tenha o retorno da nossa pauta. Não temos data para saída. A principal reivindicação é o pagamento da área Santa Cecília, que já foi decretada como de interesse público pelo presidente Lula no início do ano, mas até agora não houve pagamento e nem previsão”, afirmou o representante.

Desapropriação da área
A Fazenda Santa Cecília I e II foi declarada de interesse social para fins de desapropriação por meio de decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em janeiro de 2026. Conforme o documento, o imóvel possui área registrada de aproximadamente 2,3 mil hectares de deve ser destinado à reforma agrária após a conclusão do processo judicial e indenização da propriedade.
Segundo o MST, o acampamento instalado na área reúne famílias que aguardam regularização há cerca de 16 anos. O movimento afirma ainda que a desapropriação depende agora do pagamento da indenização ao proprietário, estimada em aproximadamente R$ 25 milhões, por meio de Títulos da Dívida Agrária (TDA).
“A área já está decretada para desapropriação por interesse social. O proprietário recebe por meio de títulos da dívida agrária. Depois do pagamento, o Incra entra com o processo judicial para emissão da posse e criação do assentamento”, explicou Valdeir.
Além da Fazenda Santa Cecília, os manifestantes também cobram prioridade em outras áreas consideradas estratégicas pelo movimento, como as fazendas Aratuba e Guiratinga, localizadas em Juscimeira (MT) e Guiratinga (MT) respectivamente, que envolvem acordo judicial e também a Fazenda Carolina, em Nortelândia (MT).

Audiência com representantes
O MST também solicitou uma audiência na primeira quinzena de junho com representantes do governo federal e parlamentares da base aliada em Mato Grosso, entre eles a ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, o presidente nacional do Incra, César Aldrighi, o senador Carlos Fávaro (PSD-MT) e os deputados estaduais Valdir Barranco (PT) e Lúdio Cabral (PT).
Em nota divulgada durante a ocupação, o MST afirmou que Mato Grosso ainda não recebeu nenhum novo assentamento rural na atual gestão federal e criticou a lentidão nos processos ligados à reforma agrária.
“O MST denuncia a lentidão estrutural do Incra e do Governo Federal em responder às demandas concretas da reforma agrária popular”, diz trecho do documento.
Incra rebate
Em nota, o Incra afirmou que as pautas apresentadas pelo MST já vêm sendo tratadas pela Superintendência Regional de Mato Grosso e que a maioria das reivindicações, algumas há mais de 15 anos em tramitação, já foi analisada e encaminhada à sede nacional do órgão, em Brasília.
A autarquia disse ainda que lamenta a ocupação da sede em Cuiabá sem aviso prévio, mas reforçou que segue aberta ao diálogo e à construção de soluções para a reforma agrária dentro dos limites legais e institucionais.
Leia a nota completa:
“O Incra esclarece que a Superintendência Regional de Mato Grosso já vem tratando as pautas apresentadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) junto às lideranças, dentro das normativas vigentes para a obtenção de áreas e criação de assentamentos.
A maioria das reivindicações mencionadas – algumas com mais de 15 anos – foi devidamente analisada e encaminhada pela Superintendência à sede do Incra, em Brasília, para aprovação final, conforme os trâmites previstos pela autarquia. É importante destacar que os encaminhamentos técnicos e administrativos por parte da Superintendência já foram realizados.
O Incra lamenta que, mesmo diante do andamento regular dos processos, o movimento tenha optado pela ocupação do prédio da Superintendência em Cuiabá, sem aviso prévio. A autarquia reforça seu compromisso com o diálogo e a transparência, e permanece à disposição para esclarecimentos adicionais.
Reafirmamos nosso compromisso com o diálogo e com a construção de soluções para a Reforma Agrária no estado dentro dos limites legais e institucionais.”
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