A mosca-dos-estábulos tem causado prejuízos recorrentes à pecuária em Mato Grosso do Sul. O inseto se alimenta do sangue dos animais e provoca irritação constante, o que reduz o tempo de pastejo, causa perda de peso e, em casos mais graves, pode levar à morte do rebanho.
Mosca-dos-estábulos causa prejuízos e desafia controle no campo. (Foto: Maxsandro Martins)
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Em propriedades rurais distribuidas em mais de dez municípios do estado, criadores relatam dificuldades para manter a produtividade. Os animais ficam debilitados, não conseguem se alimentar adequadamente, o que gera custos extras e prejuízos diretos à atividade.
Embora parte dos produtores associe o problema à aplicação de vinhaça nas lavouras de cana-de-açúcar, especialistas apontam que a situação envolve múltiplos fatores.
Em reportagem exibida no programa +Agro desta sexta-feira (29), o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Paulo Cansado, explica que o inseto encontra condições ideais dentro das próprias propriedades.
“Na fazenda, a mosca tem tudo que ela precisa: o animal, que é a fonte de alimento, e locais para reprodução, como matéria orgânica em decomposição. Ela se desenvolve ali e depois amplia a população”, afirma.
Praga afeta alimentação do gado, reduz produtividade e mobiliza estudos há mais de 15 anos em MS. (Foto: Maxsandro Martins)
Ele também destaca que mudanças no manejo agrícola contribuíram para esse cenário. “Aquele material que antes era queimado na cana passou a permanecer no solo, retendo umidade e criando um ambiente que favorece o desenvolvimento da mosca”, explica.
Estudos feitos há 15 anos
Os surtos registrados entre 2008 e 2009 marcaram o início de uma série de pesquisas no estado. Na época, o conhecimento sobre a dinâmica da praga era limitado, o que levou produtores e a cadeia da cana-de-açúcar a buscarem apoio técnico.
“Não se sabia quase nada, nem onde eram os focos de criação, nem que mosca exatamente era essa”, relembra Paulo Cansado.
Desde então, a Embrapa Gado de Corte tem conduzido estudos para entender o comportamento do inseto, seu ciclo de vida e os fatores que contribuem para a ocorrência dos surtos. O trabalho inclui desde pesquisas básicas até o desenvolvimento de soluções práticas.
Pesquisas apontam que controle depende de manejo integrado e ação conjunta entre produtores e usinas. (Foto: Maxsandro Martins)
Atualmente, com estrutura mais avançada, como insetários e laboratórios modernos, os pesquisadores conseguem reproduzir o ambiente da mosca para testar estratégias de controle e manejo.
Riscos e desafios no controle
Um dos principais desafios atuais é a resistência da mosca-dos-estábulos a inseticidas. O que limita a eficácia de métodos tradicionais e aumenta a necessidade de novas alternativas.
De acordo com o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Antônio Thadeu de Barros, já se sabe que a mosca é resistente a alguns grupos de inseticidas, e por isso os pesquisadores têm buscado alternativas, como o controle biológico.
Entre as soluções estudadas estão bioinseticidas à base de bactérias e o aprimoramento de armadilhas. Ainda assim, os especialistas reforçam que nenhuma estratégia isolada resolve o problema.
“Nem armadilha, nem controle biológico funcionam sozinhos com alta eficiência. O ideal é o manejo integrado, combinando diferentes métodos”, explica o pesquisador.
Bovino deitado com moscas do estábulo em suas costas. (Foto: Embrapa Gado de Corte)
Outro ponto de atenção é o momento de agir. O pesquisador Paulo Cansado alerta que o controle precisa começar antes, de fevereiro e março, períodos em que a situação é mais crítica nas propriedades de Mato Grosso do Sul.
Manejo da vinhaça
A aplicação de vinhaça segue sendo um tema sensível na discussão. De acordo com o diretor-técnico da Associação de Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul (Biosul), Érico Paredes, o setor adota protocolos rigorosos para evitar condições que favoreçam a proliferação do inseto.
“As unidades trabalham com critérios técnicos que definem volume, área e forma de aplicação para evitar encharcamento prolongado”, afirma.
Manejo de vinhaça deve ser controlado para evitar presença da mosca-dos-estábulos. (Foto: Embrapa)
Ele ressalta ainda que a prática é fiscalizada por órgãos ambientais e que a vinhaça tem papel importante como fertilizante agrícola.
Integração entre setores
Para especialistas e representantes do setor produtivo, o enfrentamento da mosca-dos-estábulos depende de ação conjunta entre pecuaristas e usinas, a longo prazo.
Além disso, fatores climáticos têm tornado o cenário ainda mais desafiador, já que variações de umidade e temperatura dificultam a previsibilidade dos surtos do inseto.
Mesmo com avanços científicos, surtos ainda ocorrem e exigem prevenção nas propriedades rurais. (Foto: Maxsandro Martins)
Após mais de 15 anos de pesquisas, os avanços já permitem respostas mais rápidas e maior conhecimento sobre o problema. Ainda assim, o combate exige vigilância constante.