mato-grossense mira 3ª maior montanha do mundo

Do calor que pode ultrapassar os 40°C em Mato Grosso para temperaturas de até -30°C de sensação térmica no topo de uma montanha. Entre um extremo e outro, o advogado Weder Lacerda, de Pontes e Lacerda (MT) decidiu encarar um dos maiores desafios do montanhismo mundial: o projeto dos Sete Cumes, que consiste em escalar a montanha mais alta de cada continente.

Weder já colocou os pés no topo de duas das sete montanhas: o Aconcágua, na Argentina, e o Monte Elbrus, na Rússia, e pretende dar continuidade ao projeto e ser o primeiro mato-grossense a enfrentar as “gigantes de pedra”.

O advogado mato-grossense Weder Lacerda participa do desafio dos Sete Cumes e já alcançou o topo de dois deles. – Fotos: Arquivo pessoal

Ao Primeira Página, Weder conta que antes de enfrentar montanhas de milhares de metros de altitude, era apenas um garoto inquieto de família humilde. Nascido em Pontes e Lacerda, cresceu estudando em escolas públicas e praticando esportes.

Jogava vôlei, handebol e participava de competições de atletismo. No ensino médio, chegou a ganhar uma bolsa de estudos em uma escola particular, quando morava em Guarantã do Norte. A inquietação, segundo ele, já aparecia na infância.

“Desde pequeno sempre dava trabalho, pois era hiperativo e não parava quieto, vivia subindo em muros e em árvore. Já sentia que ficar parado em um canto só, não me agradava. Resumindo, eu já deixava minha mãe preocupada desde criança”, conta rindo.

A aventura, porém, não significava viajar pelo mundo. Como a família não tinha condições financeiras, conhecer outros países parecia algo distante. Sempre que podia, Weder dava uma “escapada” para cachoeiras e rios. E havia ainda outra paixão: o céu.

Na pré-adolescência, sonhava em ser astrônomo e chegou a conquistar por dois anos consecutivos o primeiro lugar de sua cidade na Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA).

O sonho acabou sendo deixado de lado por questões financeiras. Mas a vontade de chegar perto das estrelas, de certa forma, voltou muitos anos depois, só que por outro caminho.

⛰️ Primeira montanha veio em 2015

O primeiro contato com uma alta montanha aconteceu em 2015, durante uma viagem à Bolívia. Weder visitou o Chacaltaya, em La Paz, montanha cujo cume passa dos 5.400 metros de altitude. Porém, na primeira tentativa, não conseguiu chegar ao topo.

O motivo foi o ar rarefeito. Sentindo-se muito cansado e com falta de oxigênio, decidiu voltar. A decisão, entretanto, ficou na cabeça durante um ano. “Quando voltei ao Brasil, essa decisão de não ter chegado ao cume me corroeu por um ano”, lembra.

Em 2016, ele retornou à montanha e conseguiu chegar ao topo. Ainda assim, demoraria alguns anos até que aquela experiência se transformasse em um projeto muito maior.

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Após desistir de chegar ao topo do Chacaltaya por causa do ar rarefeito, ele retornou em 2016 e conseguiu concluir a subida. – Foto: Arquivo pessoal

💻 Um anúncio pago mudou tudo

A virada aconteceu em junho de 2023. Em um momento em que estava ansioso e triste, Weder viu nas redes sociais um anúncio de uma empresa brasileira oferecendo uma expedição para o Aconcágua, na Argentina.

A ingenuidade, porém, teve um preço. O Aconcágua seria a experiência que transformaria completamente sua relação com o montanhismo.

⛰️ Afinal, o que são os Sete Cumes?

O desafio consiste em escalar a montanha mais alta de cada continente. A escalada dos Sete Cumes foi realizada pela primeira vez pelo americano Richard Bass em 30 de abril de 1985, que aos 55 anos foi o homem com a maior idade a escalar o Everest na época.

Weder só descobriu o tamanho do desafio quando já estava no início do trekking do Aconcágua. Ele era o único integrante do grupo que não era montanhista. Ao redor, havia pessoas experientes, algumas com reconhecimento internacional e até registro no Guinness Book.

“Eu fui bem ingênuo pois não pesquisei nada sobre como era a montanha, só fui, com a cara e a coragem. Não indico isso, mas acredito que se eu tivesse pesquisado sobre os riscos, talvez eu não tivesse ido e teria perdido uma das maiores e melhores experiências da minha vida”, analisa.

No Aconcágua, Weder chegou a ter 47% de saturação de oxigênio, enfrentou dificuldade para respirar e, posteriormente, descobriu que estava com os pulmões comprometidos em 70% por uma pneumonia bacteriana. Também presenciou a morte de uma montanhista romena no próprio cume.

⛰️ A quase morte no Aconcágua

A segunda montanha mais alta do projeto também foi a mais traumática. No dia do ataque ao cume, Weder acordou cansado e com a respiração ofegante. Como tudo era novidade, acreditou que aquilo fazia parte da adaptação à altitude.

Continuou. Chegou ao topo com muita dificuldade para respirar e extremamente cansado. A sensação era de que havia líquido em seu peito, mas não desistiu. O que ele ainda não sabia é que estava enfrentando uma situação potencialmente fatal.

Pouco depois de chegar ao cume, uma montanhista romena alcançou o topo. Após se sentar, sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu diante do grupo.

Um médico que estava entre os montanhistas e os guias tentaram reanimá-la, inclusive com adrenalina intraóssea. Nada funcionou. A morte interrompeu a expedição e aumentou o tempo de permanência no cume, justamente quando as condições climáticas começaram a piorar.

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Uma montanhista romena sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu diante do grupo, em meio à piora das condições climáticas. – Foto: Reprodução/Alta Montanha

O grupo precisou enfrentar uma tempestade de neve durante a descida, com visibilidade de aproximadamente um metro e frio de quase -20°C. Foram quase cinco horas de caminhada.

A equipe havia iniciado o ataque ao cume pouco depois da meia-noite e só retornou ao acampamento, localizado a cerca de 6 mil metros de altitude, entre 17h e 18h. Mas a aventura ainda não havia terminado.

🫁 Saturação de 47% e uma promessa

Por volta da meia-noite, Weder começou a passar mal novamente. Sentia dificuldade para respirar e tinha a impressão de que havia líquido nos pulmões. Temendo um edema pulmonar, pediu ajuda ao colega de barraca, que chamou o guia.

Os números assustaram. A frequência cardíaca estava em 120 batimentos por minuto e a saturação de oxigênio em apenas 47%. Segundo Weder, naquela altitude uma saturação entre 60% e 70% era considerada tolerável.

Sem possibilidade de um resgate de helicóptero naquele momento, ele decidiu permanecer no local. Comeu chocolate, bebeu água, tentou dormir e fez uma promessa a si mesmo: voltaria para casa. Uma hora depois, a saturação havia subido para 62%.

No dia seguinte, conseguiu descer a montanha. Ainda se sentindo mal, pagou um helicóptero particular e deixou a região um dia antes do restante do grupo.

Ao chegar a Cuiabá, procurou atendimento médico. Um raio-X revelou que os pulmões estavam com 70% de comprometimento. O diagnóstico foi pneumonia bacteriana. Weder voltou para Pontes e Lacerda e ficou aproximadamente um mês em tratamento.

A experiência também deixou marcas psicológicas. Depois de presenciar a morte da montanhista e sentir que poderia morrer, desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático e fez alguns meses de terapia.

🪆 Segunda conquista foi na Rússia

Mesmo depois de tudo isso, ele voltou para as montanhas. A segunda conquista veio em 31 de agosto, com o Monte Elbrus, na Rússia, considerado por ele a montanha mais alta da Europa dentro do projeto.

Localizado na cordilheira do Cáucaso, na região entre Rússia e Geórgia, o Elbrus apresentou condições diferentes das encontradas no Aconcágua. O tempo abriu justamente no momento da chegada ao topo e permitiu que ele enxergasse cerca de 50 quilômetros de distância.

A estrutura turística também facilitou parte do percurso: até cerca de 4 mil metros há estação de esqui e turistas conseguem chegar à região por teleférico. Mas a montanha não deixou de cobrar seu preço.

Depois dos 3 mil metros, o grupo enfrentou muita chuva. Nos acampamentos mais altos, vieram as tempestades de neve. No cume, a sensação térmica chegou a -30°C.

Mesmo assim, o grupo estava preparado. Weder chegou ao topo em 3 horas e 30 minutos e completou subida e descida em 5 horas e 11 minutos.

Se no Aconcágua a experiência foi marcada pelo trauma, no Elbrus ele conseguiu finalmente contemplar a dimensão do que estava fazendo. O tempo estava limpo. Do alto, havia visibilidade de quase 50 quilômetros. “Indescritível”, resume.

🏔️ Um advogado no meio das montanhas

Quando não está enfrentando temperaturas negativas e altitudes extremas, Weder trabalha como advogado em Pontes e Lacerda.

Formado na área jurídica, foi professor universitário durante dez anos, lecionou na Unemat e também no IFMT. É mestre em Direitos Humanos pela Universidade do Minho, em Portugal, e atualmente cursa doutorado em Direito Constitucional pela Universidad de Buenos Aires.

Conciliar a profissão com expedições que podem durar semanas exige planejamento. Com pelo menos seis meses de antecedência, começa a pagar as viagens e adquirir equipamentos. Também organiza o escritório, avisa clientes e ajusta compromissos profissionais.

Quando há audiência marcada durante uma expedição, peticiona aos juízes para solicitar mudança de data. Até agora, segundo ele, tem funcionado.

💪🏻 O treino é para resistir, não para “ficar forte”

Quem imagina que o preparo para uma montanha desse porte significa apenas ganhar músculos está enganado. Weder explica que o objetivo é desenvolver resistência para suportar longos períodos de esforço carregando mochilas que podem chegar a cerca de 25 quilos.

A preparação específica costuma exigir pelo menos seis meses. O treinamento busca fazer com que o corpo suporte esforço contínuo, com menos pausas e maior capacidade de resistência. Mas, para ele, existe algo ainda mais importante que o condicionamento físico: a cabeça.

Na alta montanha, segundo Weder, a prioridade deixa de ser simplesmente chegar ao topo. É sobreviver.

📸 O que as fotos não mostram

Nas redes sociais, as montanhas aparecem como paisagens gigantescas, neve, céu azul e sorrisos no cume. A realidade é bem diferente. Weder conta que por trás de uma fotografia existe uma noite mal dormida, frio intenso, ar rarefeito, cansaço e horas de caminhada.

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Weder no topo do Monte Elbrus, na Rússia, considerado por ele a montanha mais alta da Europa dentro do projeto. – Foto: Arquivo pessoal

Para o ataque ao cume, os montanhistas normalmente saem por volta da meia-noite e caminham durante toda a madrugada para chegar ao topo próximo ao nascer do sol. “Então a foto de cume só estampa um sorriso no rosto e uma linda paisagem”, resume.

🗺️ De Mato Grosso para o mundo

Weder afirma ter descoberto, após retornar do Aconcágua, que era o primeiro mato-grossense a conquistar aquele cume dentro do projeto dos Sete Cumes. Depois do Elbrus, tornou-se, segundo ele, o primeiro mato-grossense a conquistar dois cumes do desafio.

A marca tem um significado especial justamente porque Mato Grosso não é conhecido pelo montanhismo. “Representar meu estado e minha terra natal é algo que para mim parecia tão distante”, afirma.

Mais do que um título, ele diz enxergar a trajetória como uma forma de mostrar que outras pessoas também podem chegar onde imaginavam ser impossível. E, quando encontra estrangeiros pelo caminho, aproveita para falar de Mato Grosso, do Pantanal e até das onças. “Faço inveja para eles!”, brinca.

Mas nem só de montanha vive o aventureiro. Weder conta que aproveita as viagens para, além das escaladas, conhecer os países. Inclusive, já visitou 44 deles.

“Sempre eu aproveito para conhecer mais sobre a cultura, a língua, experimentar os pratos e bebidas típicas. Nem sempre é bom ao nosso paladar, pois em nosso país, nossas comidas são mais temperadas e saborosas. Mas é muito legal você sair da sua zona de conforto e conhecer algo novo. Faz a gente evoluir enquanto pessoa”, explica.

🏔️Ainda faltam cinco

Apesar das duas conquistas, com o Aconcágua (América do Sul, na Argentina) e o Monte Elbrus (Europa, na Rússia) o projeto está apenas começando.

  • Monte Everest (Ásia, no Nepal) – 8.848 metros
  • Aconcágua (América do Sul, na Argentina) – 6.961 metros ✅
  • Denali / Monte McKinley (América do Norte, no Alasca) – 6.194 metros
  • Kilimanjaro (África, na Tanzânia) – 5.895 metros
  • Elbrus (Europa, na Rússia) – 5.642 metros ✅
  • Maciço Vinson (Antártida) – 4.892 metros
  • Pirâmide Carstensz / Puncak Jaya (Oceania, na Indonésia) – 4.884 metros

O próximo desafio será o Kilimanjaro, na Tanzânia, a montanha mais alta da África. Atualmente, Weder está no Cairo, no Egito. Em seguida, pretende passar por Istambul, na Turquia, antes de seguir viagem.

Para este ano, também há planos de conhecer a Tailândia em novembro. O Everest, porém, ainda provoca respeito. Como começou pelo Aconcágua, a segunda montanha mais alta do projeto, Weder decidiu adotar uma estratégia particular: subir primeiro as menores.

Até chegar ao topo do mundo, portanto, ainda há muito chão, ou melhor, muita montanha pela frente.

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