A busca por uma vacina mais eficaz contra a malária acaba de ganhar um dos avanços mais importantes dos últimos anos. Cientistas da Fiocruz identificaram um conjunto inédito de proteínas do parasita causador da doença que pode servir de base para o desenvolvimento de um imunizante capaz de proteger contra diferentes espécies da malária e agir em várias fases da infecção.
A descoberta foi publicada nessa quarta-feira (1º) na revista científica Nature e representa um novo caminho para superar um desafio que a ciência enfrenta há mais de cinco décadas: criar uma vacina com proteção ampla, duradoura e eficiente.
Hoje, as vacinas disponíveis oferecem proteção parcial e são voltadas principalmente para o Plasmodium falciparum, espécie responsável pelos casos mais graves da doença. Além disso, a eficácia diminui com o tempo e não cobre todas as etapas da infecção.
Como os cientistas chegaram à descoberta
🦟
Fiocruz encontra novos alvos para uma vacina mais completa contra a malária
Proteínas
166
Os cientistas identificaram dezenas de proteínas que podem servir de alvo para futuras vacinas.
Espécies
5
A resposta do sistema imunológico foi observada em diferentes espécies do parasita.
Pesquisa
7 anos
O estudo é resultado de anos de trabalho realizado por pesquisadores da Fiocruz.
🔬 A descoberta pode abrir caminho para uma vacina capaz de combater mais de um tipo de malária e agir em diferentes fases da doença.
O que torna a descoberta importante?
Em vez de analisar apenas anticorpos, os pesquisadores estudaram como células de defesa identificam o parasita, revelando novos alvos para futuras vacinas.
Os alvos encontrados aparecem em diferentes fases da infecção, algo que pode ampliar a eficácia dos próximos imunizantes.
Os resultados indicam potencial para proteger contra diferentes espécies do parasita, um dos grandes desafios da ciência.
A descoberta ainda passará por novas pesquisas e testes antes que possa resultar em uma vacina disponível para a população.
No novo estudo, os pesquisadores adotaram uma estratégia diferente. Em vez de focar apenas nos anticorpos, eles investigaram como os linfócitos T CD8+, células de defesa do organismo, reconhecem e atacam as células infectadas pelo parasita.
Essa análise permitiu identificar 453 pequenos fragmentos de proteínas, chamados peptídeos, provenientes de 166 proteínas do Plasmodium. A maior parte desses alvos pertence a proteínas essenciais para a sobrevivência do parasita, que permanecem praticamente iguais em diferentes espécies e durante todo o ciclo da doença.
Segundo a coordenadora da pesquisa, Caroline Junqueira, da Fiocruz Minas, essa característica torna esses alvos extremamente promissores para uma futura vacina.
“Essas proteínas são necessárias em todos os estágios do ciclo de vida do parasita e são altamente conservadas entre diferentes espécies. Isso as torna alvos muito interessantes para uma vacina universal”, explica.
Testes mostraram resposta do sistema imunológico

Os cientistas verificaram que o sistema imunológico reconheceu esses antígenos em pessoas infectadas tanto pelo P. falciparum quanto pelo P. vivax, além de observar resposta semelhante em outras espécies do parasita que infectam primatas e camundongos.
Nos testes realizados em modelos animais, alguns dos alvos chegaram a reduzir a quantidade de parasitas no organismo, indicando um possível efeito protetor.
“Não é só reconhecimento: vimos indícios de proteção, o que é fundamental para o desenvolvimento de uma vacina”, destaca a pesquisadora.
Outro resultado considerado importante foi a identificação dos mesmos peptídeos em pessoas com perfis genéticos diferentes. Isso aumenta a possibilidade de que uma futura vacina funcione em populações diversas, um dos grandes desafios para esse tipo de imunizante.
Patente abre caminho para novas pesquisas
O estudo também marca um feito inédito para a ciência brasileira. É a primeira pesquisa no país a utilizar a técnica de imunopeptidômica aplicada à malária, permitindo mapear com precisão os fragmentos do parasita reconhecidos pelo sistema imunológico.
A pesquisa foi desenvolvida ao longo de sete anos e teve como principais autoras as doutorandas da Fiocruz Minas Camila Barbosa e Luna de Lacerda, além de reunir colaboradores brasileiros e internacionais.
Os resultados já renderam uma patente internacional concedida pelos Estados Unidos e por organizações de propriedade intelectual do continente africano. A proteção abre caminho para futuras parcerias de pesquisa e desenvolvimento de vacinas baseadas nos antígenos identificados.
Segundo a coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica da Fiocruz Minas, Ana Paula Granato, a patente facilitará acordos internacionais de licenciamento e desenvolvimento conjunto de novas tecnologias.
Quando uma nova vacina poderá chegar?
Apesar do avanço, os pesquisadores ressaltam que ainda não existe uma nova vacina pronta. Os antígenos descobertos precisarão passar por novas etapas de validação, testes laboratoriais e ensaios clínicos antes que possam dar origem a um imunizante disponível para a população.
Mesmo assim, os cientistas consideram que a descoberta abre uma nova frente na luta contra uma doença que ainda provoca centenas de milhares de mortes todos os anos em diversas partes do mundo e pode acelerar o desenvolvimento de uma vacina capaz de oferecer proteção mais ampla contra a malária.
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