Callai critica listas de boicote e alerta para prejuízos ao comércio de Lucas do Rio Verde

As listas de boicote a estabelecimentos comerciais por supostas posições políticas após as eleições presidenciais entraram no centro do debate em Lucas do Rio Verde. Em meio à repercussão dessas publicações nas redes sociais e às manifestações de intolerância contra pessoas de diferentes regiões do país, o presidente da Câmara Municipal, Airton Callai, fez um apelo ao respeito às diferenças e alertou para os prejuízos que esse tipo de iniciativa pode causar à economia local.

Em entrevista concedida nesta quarta-feira (28), na Câmara de Vereadores, Callai criticou a tentativa de associar empresas a determinadas ideologias e defendeu que divergências políticas não sejam transformadas em motivos para excluir pessoas ou prejudicar negócios. O posicionamento ocorre um dia antes da manifestação anunciada pelo Centro de Tradições Norte Nordeste (CTNN), marcada para quinta-feira (29), na sede do Legislativo municipal.

“Quem cria ilhas não constrói pontes”, afirmou o presidente, ao defender o diálogo como caminho para enfrentar as diferenças políticas e preservar a convivência entre os moradores.

Boicotes podem atingir trabalhadores e famílias

Para Callai, as listas divulgadas nas redes sociais partem de critérios questionáveis e podem atingir muito mais pessoas do que os responsáveis pelas publicações imaginam. Segundo ele, a associação de um estabelecimento a determinada posição política não significa que todos os proprietários, funcionários e colaboradores compartilhem daquela visão.

O presidente ressaltou que o comércio é uma das bases da economia de Lucas do Rio Verde, responsável por movimentar recursos, gerar empregos e sustentar famílias. Por isso, considera que incentivar boicotes por divergências ideológicas pode prejudicar toda a comunidade.

“O comércio é o que fortalece a roda do nosso município, é o que gera emprego e gera renda”, declarou.

Callai também destacou que os estabelecimentos locais já enfrentam a concorrência das compras pela internet. Na avaliação dele, enfraquecer empresas da própria cidade não representa uma solução para as divergências políticas e pode comprometer a atividade econômica de quem vive e trabalha no município.

“O comércio não é só uma loja. O comércio não é só um restaurante, o comércio não é só uma borracharia. O comércio é gente que aplica dinheiro, que tem sonho, que gera emprego, que gera renda”, afirmou.

Presidente defende liberdade de pensamento

Ao longo da entrevista, Callai argumentou que a defesa da liberdade de expressão precisa valer também para quem pensa de maneira diferente. Para ele, o resultado das eleições deve ser compreendido como parte do processo democrático, mesmo por aqueles que não tiveram suas preferências políticas representadas nas urnas.

O presidente reconheceu que o resultado eleitoral pode gerar frustração, mas defendeu que o caminho, a partir de agora, seja cobrar os representantes eleitos, em vez de estimular conflitos entre cidadãos.

“Você pensar diferente não te faz diferente da pessoa, só quer dizer que você vê aquilo com outros olhos”, disse.

Na avaliação de Callai, a polarização se torna ainda mais prejudicial quando ultrapassa o debate político e passa a interferir nas relações familiares, profissionais e comunitárias. Ele alertou que a disseminação de preconceitos em grupos de mensagens e nas conversas cotidianas pode incentivar comportamentos de exclusão.

O presidente também criticou a criação de movimentos para impedir contratações ou compras em estabelecimentos em razão das opiniões políticas atribuídas a seus proprietários.

“Se você defende a liberdade de expressão, se você defende a liberdade para as pessoas, elas também podem pensar diferente de você”, declarou.

Callai destaca contribuição de migrantes para Mato Grosso

Outro ponto central da entrevista foi a defesa do respeito às pessoas que vieram de outras regiões do Brasil para construir a vida em Lucas do Rio Verde. O tema ganhou relevância diante de comentários e publicações que, segundo o contexto apresentado na entrevista, têm alimentado hostilidade contra pessoas do Norte e do Nordeste.

Callai afirmou que a formação de Mato Grosso e o desenvolvimento de Lucas do Rio Verde também estão ligados à contribuição de trabalhadores que migraram em busca de oportunidades.

“Não podemos tratar as pessoas porque nasceram em um local diferente e vieram buscar a oportunidade aqui”, afirmou.

O presidente lembrou que moradores de diferentes partes do país escolheram o município para trabalhar, criar os filhos e construir suas histórias. Para ele, essa diversidade faz parte da identidade local e não pode ser transformada em motivo de discriminação.

“Essa cidade é feita de pessoas de todos os rincões que vieram trabalhar e morar aqui. Criaram seus filhos. Tiveram aqui sua esperança de vida”, disse.

Callai defendeu que as diferenças de origem, religião e pensamento não sejam usadas para justificar tratamento desigual. Também afirmou que a convivência democrática exige que as pessoas possam expressar suas opiniões sem tentar impor suas convicções aos demais.

Câmara receberá representantes do CTNN

A entrevista também abordou a manifestação anunciada pelo Centro de Tradições Norte Nordeste para esta quinta-feira (29), na Câmara Municipal de Lucas do Rio Verde.

Questionado sobre a mobilização, Callai afirmou que os representantes serão recebidos com respeito e reiterou a importância da contribuição dos nordestinos para a formação e o desenvolvimento de Mato Grosso.

O presidente defendeu que o momento seja uma oportunidade para reforçar a união entre os moradores, em vez de aprofundar divisões motivadas por posicionamentos políticos ou pela origem regional.

“Precisamos unir”, afirmou.

Ao final, Callai voltou a pedir que a população evite participar de listas de boicote e procure resolver as divergências por meio do diálogo. Para ele, o desafio é fazer com que a liberdade defendida no debate público seja respeitada também nas relações cotidianas.

“A liberdade que nós pregamos para os outros também tem que valer para nós”, concluiu.

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