Brasil poderá usar sobra da cota do Uruguai para vender carne à China, diz Lula

O Brasil recebeu autorização do Uruguai para utilizar o excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China. A medida foi anunciada nesta segunda-feira (21) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após uma reunião bilateral com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, em Nova York, durante a semana de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU.

As exportações brasileiras de carne bovina recuaram 27,1% em volume em agosto, na comparação com o mesmo mês de 2025, após as restrições causadas pelo atingimento da cota. – Foto: Agência Brasil

A autorização pode abrir espaço para novos embarques brasileiros ao principal destino da carne bovina do país justamente em um momento de restrição das vendas provocada pelo limite estabelecido pelo governo chinês.

Apesar do aval uruguaio, a utilização do excedente ainda depende da concordância da China. Até a tarde desta segunda-feira, não havia confirmação oficial do governo chinês sobre a possibilidade de transferência do saldo entre os dois países.

A cota concedida ao Uruguai para 2026 é de 331 mil toneladas. O volume que poderá efetivamente ser aproveitado pelo Brasil dependerá de quanto desse limite permanecer sem utilização pelos exportadores uruguaios e dos termos que forem acertados com Pequim.

Em publicação nas redes sociais, Lula afirmou ter agradecido a Orsi pela autorização e disse que comércio agrícola e infraestrutura estiveram entre os assuntos tratados durante a reunião.

Os dois presidentes também discutiram integração latino-americana, projetos de infraestrutura na fronteira entre os países e a construção da ponte binacional sobre o Rio Jaguarão.

Setor vê impacto limitado ainda em 2026

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) considerou positiva a autorização uruguaia, mas avalia que os efeitos sobre os embarques ainda em 2026 devem ser limitados. Isso ocorre por causa do tempo necessário para negociação, contratação, embarque e transporte da carne até a China.

A expectativa do setor é de que a possibilidade de utilização do excedente ganhe maior importância em 2027. Para o próximo ano, a cota brasileira está prevista em 1,128 milhão de toneladas, e a Abiec alerta para o risco de o limite ser consumido já nos primeiros meses caso o atual ritmo das vendas seja mantido.

Em nota, a entidade afirmou que a medida pode funcionar como uma alternativa para manter o fluxo de exportações ao mercado chinês e voltou a defender mecanismos que deem maior previsibilidade aos embarques ao longo do ano.

Em 2026, o Brasil recebeu uma cota de 1,106 milhão de toneladas, com tarifa de importação de 12%. O volume que ultrapassar esse limite fica sujeito a uma sobretaxa adicional de 55%, elevando a tarifa total para 67%.

Exportações já sentiram efeito da cota

A proximidade do limite chinês já teve reflexos nas exportações brasileiras. Em agosto, os embarques de carne bovina recuaram 27,1% em volume na comparação com o mesmo mês de 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

Em valores, as vendas passaram de US$ 1,5 bilhão em agosto do ano passado para US$ 1,2 bilhão neste ano, queda de 19,7%. A retração ocorreu em meio à cautela dos exportadores diante do risco de a mercadoria chegar à China depois do esgotamento da cota e ficar sujeita à tarifa adicional.

Apesar da queda mensal, o resultado acumulado de 2026 ainda permanece positivo. Entre janeiro e agosto, as exportações brasileiras de carne bovina resfriada e congelada cresceram 4,7% em volume frente ao mesmo período de 2025. Em receita, a alta chegou a 22,3%.

A China segue como o principal destino da carne bovina brasileira. Com o limite imposto aos embarques, o aproveitamento de uma eventual sobra da cota uruguaia surge como uma possibilidade de ampliar o espaço para o produto brasileiro no mercado chinês, embora a operação ainda dependa do aval de Pequim.

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