Aos 92 anos, o agricultor Alberto Francisco Pereira continua dedicado ao cultivo de guaraná no Sítio Bela Vista, em Marcelândia, no norte de Mato Grosso. Há cerca de 30 anos, ele e a família mantêm a tradição de produzir o fruto, que agora vive uma nova fase: depois de uma colheita de aproximadamente 500 quilos no primeiro ano de acompanhamento técnico, a expectativa é ultrapassar duas toneladas nesta safra.
O crescimento representa a transformação de uma propriedade que, apesar de contar com cerca de três mil pés de guaraná, enfrentava dificuldades para alcançar bons resultados. Com mudanças no manejo e a participação dos filhos, a família conseguiu melhorar o desenvolvimento das plantas e ampliar o potencial produtivo da lavoura.
A história de Alberto também acompanha a valorização de um produto tradicional em Mato Grosso. Presente na cultura regional, especialmente pelo consumo do guaraná ralado, o fruto ganhou espaço no mercado e passou a representar uma oportunidade de renda para pequenos produtores.
No início da atividade, encontrar compradores era um desafio. Com o passar dos anos, a procura aumentou, e a família passou a investir em melhorias para manter o cultivo.

De 500 quilos a mais de duas toneladas
A mudança na propriedade começou com a chegada da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) Fruticultura Perene, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT).
A técnica de campo Marisia Gouveia Porsebom identificou que o guaranazal precisava de cuidados específicos para melhorar a produtividade. Entre as medidas adotadas estavam a poda dos galhos em excesso, a correção do solo com calcário e a aplicação de adubação.
Segundo Marisia, a mudança de comportamento da família foi fundamental para os resultados. “Um dos principais fatores para esse crescimento foi quando o produtor entendeu que a lavoura precisava ser alimentada, com calcário e adubação. A partir do momento em que eles compreenderam isso, começaram a perceber os resultados no campo”, explicou.
No primeiro ano de acompanhamento, a produção foi de aproximadamente 500 quilos. Agora, a expectativa é superar duas toneladas, volume mais de quatro vezes superior ao registrado inicialmente.
Tradição que passa de pai para filhos

Mesmo aos 92 anos, Alberto permanece ligado à atividade que construiu ao longo de três décadas. Os filhos Valdir de Oliveira Pereira e Paulo de Oliveira Pereira participam do trabalho na propriedade e ajudam a manter a tradição familiar.
Valdir conta que o cultivo sempre fez parte da rotina da família, mas reconhece que a adoção de novas técnicas trouxe resultados importantes.
“A gente já trabalha com o guaraná há muitos anos, mas antes não fazia todos os manejos necessários e a produção não era boa. Depois que começamos a receber a assistência do Senar, a diferença foi grande. Valeu a pena. Tenho orgulho de trabalhar ao lado do meu pai e de continuar esse trabalho em família”, afirmou.
Paulo também destaca o orgulho de ver o guaraná produzido pela família chegar a outras regiões.
Além dos cuidados com as plantas, a família passou a registrar a quantidade colhida, planejar as atividades e pesquisar os preços dos insumos. As mudanças ajudam a organizar os custos e a preparar as próximas safras.
Mato Grosso supera média nacional de produtividade
Embora o cultivo de guaraná ainda ocupe uma área pequena em Mato Grosso, o estado apresenta produtividade superior à média brasileira.
Dados da Produção Agrícola Municipal (PAM) de 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados pelo Senar-MT, mostram que Mato Grosso produziu 52 toneladas de guaraná em 105 hectares cultivados, movimentando aproximadamente R$ 1,4 milhão.
O rendimento médio estadual foi de 495 quilos por hectare, o terceiro maior entre os estados com registros da cultura. A média brasileira ficou em 290 quilos por hectare.
No país, a produção chegou a 2.709 toneladas, com valor estimado em R$ 86,7 milhões. Bahia e Amazonas concentram a maior parte da atividade.
Além do consumo tradicional, o guaraná é utilizado na fabricação de refrigerantes, energéticos, suplementos alimentares, cosméticos e produtos farmacêuticos.
Em Mato Grosso, a colheita ocorre principalmente entre outubro e março, com maior concentração em novembro e dezembro. É justamente neste período que a família de Alberto espera colher os resultados de anos de dedicação ao cultivo.