O diagnóstico tardio de neurodivergências e seus impactos na saúde mental foram o tema da palestra que encerrou a segunda edição do TJMT Inclusivo, realizada na sexta-feira (9), no Cenarium Rural, em Cuiabá. O evento reuniu mais de 1,5 mil inscritos para discutir autismo, inclusão e direitos das pessoas com deficiência.
Promovida pelo Poder Judiciário de Mato Grosso, a capacitação contou com especialistas, profissionais de diferentes áreas, representantes de instituições públicas e familiares. A programação buscou ampliar o conhecimento sobre acessibilidade e melhorar o atendimento às pessoas com deficiência.
Diagnóstico tardio pode afetar a saúde mental
Com o tema “Diagnóstico das Neurodivergências na vida adulta: repercussões nos relacionamentos e na saúde mental”, a psicóloga Luciana Edeliz Égea Rodrigues explicou como características ligadas ao neurodesenvolvimento podem passar anos sem reconhecimento.
Segundo a especialista, algumas pessoas crescem sendo vistas como difíceis, desatentas, inconstantes ou desinteressadas. Em certos casos, esses comportamentos podem estar relacionados a condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que precisam de avaliação adequada.
A tentativa constante de esconder dificuldades e reproduzir comportamentos considerados socialmente esperados pode aumentar o desgaste emocional. Entre as possíveis consequências estão ansiedade, depressão, problemas de sono e dificuldade para reconhecer as próprias necessidades.
“Não é fácil o diagnóstico, porque eles escondem. O terapeuta tem que estar muito atento”, afirmou Luciana durante a apresentação.
Mulheres podem ter dificuldades reconhecidas mais tarde
A psicóloga também chamou a atenção para o subdiagnóstico entre meninas e mulheres. Desde cedo, algumas aprendem a imitar comportamentos de outras pessoas e a esconder dificuldades sociais ou sensoriais, o que pode dificultar a identificação de características neurodivergentes.
Na adolescência, as cobranças por autonomia, organização e interação social tendem a aumentar. Por isso, jovens que parecem lidar bem com a rotina escolar podem apresentar esgotamento ou crises emocionais em casa, onde se sentem mais à vontade para demonstrar o cansaço acumulado.
Esses sinais exigem atenção e não devem ser interpretados automaticamente como falta de interesse ou esforço. A avaliação profissional ajuda a investigar as causas das dificuldades e a identificar as formas de apoio necessárias.
Casos mostram a importância de investigar as causas
Durante a palestra, Luciana compartilhou dois casos clínicos para explicar como condições relacionadas ao neurodesenvolvimento podem permanecer sem identificação na vida adulta.
Um dos relatos envolveu um jovem com diagnóstico de TDAH que recorria ao uso de substâncias para tentar lidar com problemas de concentração e sobrecarga. O outro tratava de um homem de 56 anos com histórico de depressão persistente e consumo de álcool, além de dificuldades no trabalho, na família e na convivência social.
Os exemplos ilustraram a importância de investigar os fatores associados ao sofrimento emocional, em vez de tratar apenas manifestações isoladas. A psicóloga alertou que conteúdos vistos nas redes sociais ou impressões pessoais não substituem uma avaliação clínica criteriosa.
O processo pode envolver profissionais habilitados de diferentes áreas, como neuropsicologia, neurologia e psiquiatria. A escolha dos procedimentos depende das necessidades e das características de cada pessoa.
Diferenças de comunicação afetam os relacionamentos
Outro ponto discutido foi a convivência entre pessoas neurodivergentes e neurotípicas. Dificuldades para compreender ironias, mensagens implícitas e regras sociais não verbalizadas podem provocar mal-entendidos e conflitos em relacionamentos afetivos, familiares e profissionais.
Para Luciana, a adaptação não deve ficar sob responsabilidade exclusiva de quem apresenta uma neurodivergência. Familiares, colegas e parceiros também precisam compreender essas diferenças e aprender a se comunicar de forma mais clara.
O esforço contínuo para esconder características pessoais pode gerar desgaste físico e emocional. Nesse contexto, reconhecer as próprias necessidades e construir relações mais acolhedoras contribui para o bem-estar.
Diagnóstico pode reduzir culpa e ampliar o acolhimento
O diagnóstico tardio de neurodivergências também pode ajudar a pessoa a compreender experiências vividas ao longo dos anos. Em vez de atribuir dificuldades a falhas pessoais, ela pode identificar necessidades específicas e buscar estratégias de cuidado mais adequadas.
“O diagnóstico tardio não é um atestado de incapacidade; é uma ferramenta de libertação. Ele permite tirar o fardo da culpa e colocar no lugar a autocompaixão”, afirmou a psicóloga.
O acompanhamento pode reunir profissionais de saúde mental e de outras especialidades, incluindo fonoaudiologia e terapia ocupacional. Ajustes na rotina, estratégias para lidar com o estresse e ambientes que respeitem as necessidades individuais também podem fazer parte do cuidado.
A palestrante defendeu que conhecimento técnico e empatia orientem o atendimento nas áreas de saúde, educação e Justiça. A proposta é oferecer escuta qualificada e condições para que as pessoas sejam acolhidas sem julgamentos.
TJMT Inclusivo promove capacitação em Mato Grosso
A segunda edição do TJMT Inclusivo foi organizada pela Comissão de Acessibilidade e Inclusão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), presidida pela vice-presidente do Tribunal, desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho. A iniciativa contou com a parceria da Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis-MT), da Escola dos Servidores, da Prefeitura de Cuiabá e da Assembleia Legislativa.
O projeto busca sensibilizar a sociedade, magistrados e servidores sobre acessibilidade, inclusão e garantia dos direitos das pessoas com deficiência, além de capacitar profissionais que atuam direta ou indiretamente com esse público.
Em 2026, a programação também passou por Sorriso, Lucas do Rio Verde e Tangará da Serra. No ano anterior, mais de três mil profissionais e familiares participaram das atividades realizadas em Cuiabá, Cáceres, Rondonópolis e Sinop.
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