Há menos de um século, as mulheres brasileiras eram impedidas de votar. Hoje, elas representam a maioria do eleitorado e exercem papel decisivo nas eleições. A transformação, iniciada em 1932, marcou a história da democracia brasileira e ampliou a participação feminina na política e na sociedade.
Aos 62 anos, a aposentada Maria Aline Medeiros ainda se lembra da emoção de votar pela primeira vez. O momento, vivido ao completar 18 anos, simbolizou para ela a possibilidade de participar das decisões do país.
“Eu me lembro, sim, que votei pela primeira vez quando completei 18 anos. Antes não podia. A gente não via a hora de fazer 18 anos só para votar. Para mim, representa o poder de escolha”, conta.
Embora hoje o voto feminino pareça um direito consolidado, essa realidade é relativamente recente. As mulheres brasileiras conquistaram o direito de votar em 1932, com a publicação do primeiro Código Eleitoral do país, durante o governo de Getúlio Vargas. A garantia constitucional foi consolidada dois anos depois, na Constituição de 1934.
Segundo a historiadora Neila Barreto, a conquista representou uma ruptura com uma estrutura que mantinha as mulheres afastadas da vida pública.
“Até o início do século XX, as mulheres eram completamente excluídas da cena política. As decisões do país ficavam nas mãos dos homens, enquanto o espaço feminino era restrito aos trabalhos domésticos e às atividades definidas pela condição social da época”, explica.
Desde então, o papel da mulher na sociedade brasileira passou por profundas transformações. Além da participação política, elas ampliaram sua presença no mercado de trabalho, alcançaram níveis mais elevados de escolaridade em diversos indicadores, passaram a chefiar milhões de famílias e conquistaram espaço em diferentes áreas da vida pública.

Para a cientista política e doutora em Sociologia Cristiane Fonseca, o voto feminino representa muito mais do que um direito eleitoral.
“O voto abriu caminho para que as mulheres participassem das decisões coletivas e ocupassem espaços que antes lhes eram negados. É uma conquista que continua produzindo efeitos na democracia brasileira”, afirma.
Primeira eleição
Se para gerações anteriores votar foi uma conquista, para muitos jovens o direito já faz parte da realidade desde o nascimento.
A estudante Júlia Borges vai participar pela primeira vez de uma eleição neste ano e vê no voto a oportunidade de fazer sua voz ser ouvida.
“Para mim é muito importante, porque é a primeira vez que a minha opinião vai deixar de ser só uma opinião em casa ou na escola e vai realmente fazer diferença, não só na minha vida, mas também na de toda a população.”

Mulheres são maioria nas urnas
Hoje, as mulheres representam mais da metade do eleitorado brasileiro. Segundo dados da Justiça Eleitoral, quase 84 milhões de brasileiras estão aptas a votar nas eleições deste ano.
Em Mato Grosso, elas também são maioria entre os eleitores, reforçando o protagonismo feminino no processo democrático.
A presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT), desembargadora Serly Marcondes, avalia que esse crescimento precisa ser acompanhado por uma participação cada vez maior nos espaços de poder.
“Precisamos criar no inconsciente político da população a percepção de que as mulheres são ótimas gestoras, ótimas legisladoras e excelentes integrantes do Poder Executivo. Essa participação não ameaça ninguém; pelo contrário, fortalece uma representatividade mais humana e efetiva”, afirma.
Uma conquista que segue em construção
Da luta pelo direito de votar ao protagonismo nas eleições, a trajetória das mulheres acompanha a própria evolução da democracia brasileira.
Quase um século depois da conquista do sufrágio feminino, milhões de brasileiras seguem exercendo o direito de escolher seus representantes e influenciar os rumos do país.
Como resume a estudante Júlia Borges, cada voto também carrega a história das mulheres que abriram esse caminho. “É saber que, antes de mim, vieram tantas outras mulheres que lutaram para que hoje eu pudesse escolher quem eu quero que me represente e represente o nosso país”.
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