Nos últimos anos, a procura por ovos caipiras cresceu impulsionada por questões ligadas ao bem-estar animal, sustentabilidade e origem dos alimentos. A aparência também costuma influenciar a escolha do consumidor, principalmente pela gema mais alaranjada, frequentemente associada a uma qualidade superior. No entanto, essa percepção nem sempre reflete a realidade.
Ovo caipira nem sempre é mais nutritivo, diz nutricionista. (Foto: Reprodução)
Nutricionalmente semelhantes
Segundo a nutricionista Monyke Bragante, a principal diferença entre os ovos não está nos nutrientes oferecidos ao consumidor.
“Não existe uma diferença significativa entre o ovo caipira e o ovo de granja. Ambos são proteínas de alto valor biológico, possuem vitamina A, vitamina E, vitamina D, vitamina B12 e são ricos em colina e selênio”, explicou.
A especialista destaca que até mesmo a quantidade de calorias é muito parecida entre os dois produtos. A maior diferença está na forma como as galinhas são criadas e alimentadas.
Diferenças nutricionais são pequenas, mas sistema de produção, bem-estar animal e sustentabilidade influenciam a escolha do consumidor. (Foto: Reprodução)
Em alguns casos, ovos de galinhas criadas soltas podem apresentar pequenas variações em nutrientes como vitamina A, vitamina E e ômega-3. Ainda assim, a nutricionista alerta que isso depende da alimentação de cada ave e não permite afirmar que todo ovo caipira seja mais nutritivo.
“Alguns ovos caipiras podem ter níveis um pouco maiores de vitaminas devido à alimentação mais variada da galinha, mas não é correto afirmar isso de forma geral”, afirmou.
Veja o que a nutricionista orienta sobre o consumo da proteína nas diversas fases da vida:
Ovo fornece proteínas de excelente qualidade, contendo todos os aminoácidos essenciais para o funcionamento do organismo, manutenção dos músculos e recuperação dos tecidos.
Vantagens da gema mais escura?
Um dos mitos mais populares sobre o ovo caipira está relacionado à cor da gema. Muitas pessoas acreditam que a tonalidade mais intensa é sinal de maior qualidade nutricional. De acordo com Monyke Bragante, isso não é verdade.
“A cor da gema indica muito mais como foi a alimentação daquela galinha do que a qualidade nutritiva do ovo”, apontou.
A explicação é simples: galinhas com acesso ao pastejo e a uma alimentação mais diversificada tendem a produzir gemas mais alaranjadas. Isso influencia a aparência do alimento, mas não significa, necessariamente, mais proteínas, vitaminas ou minerais.
Apesar da fama de alimento superior, a proteína caipira tem valor nutricional semelhante ao convencional. (Foto: Reprodução)
Ovo aumenta o colesterol?
Outra dúvida frequente entre os consumidores é se o consumo regular de ovos pode aumentar o colesterol sanguíneo. Segundo a nutricionista, essa é uma ideia ultrapassada.
“Durante muito tempo acreditou-se que o ovo aumentava o colesterol, mas isso já foi desmistificado. O colesterol presente nos alimentos é diferente do colesterol sanguíneo”, afirma Monyke.
Mercado da proteína caipira avança e aposta em bem-estar animal. (Foto: Divulgação/Emater)
Ela explica que cerca de 70% do colesterol do organismo é produzido pelo próprio corpo. O maior problema está no excesso de gorduras saturadas, associado a fatores como obesidade e sedentarismo.
“O ovo não vai aumentar diretamente o colesterol sanguíneo. O que preocupa é o consumo excessivo de gorduras saturadas e outros hábitos de vida”, ressaltou.
Ainda segundo a especialista, o alimento pode fazer parte de uma alimentação equilibrada, sendo comum o consumo de um a três ovos por dia, dependendo das necessidades individuais.
Confira as orientações para comprar a proteína ideal:
Além dos benefícios nutricionais, o ovo continua sendo considerado um dos alimentos com melhor custo-benefício da alimentação brasileira.
Forma de criação é o verdadeiro diferencial
Se a diferença nutricional é pequena, então o que realmente caracteriza um ovo caipira? Para a zootecnista e técnica de campo da ATeG Prepara do Senar/MS, Gislaine da Cunha, a resposta está no sistema de produção.
Segundo ela, a proteína é produzida por galinhas criadas soltas, com acesso ao ambiente externo e ao pastejo, o que permite que expressem comportamentos naturais. Essa condição influencia diretamente a alimentação das aves e explica, inclusive, a coloração mais intensa da gema.
Criadas soltas e com acesso ao pastejo, as galinhas caipiras produzem gemas mais intensas. (Foto: Ilustração)
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Para a especialista, a escolha pelo ovo caipira costuma estar muito mais relacionada a valores ligados ao bem-estar animal, à sustentabilidade e à forma de produção do que a vantagens nutricionais.
“A gente que vê muito esse apelo sustentável de bem-estar, e esse apelo por galinhas felizes, soltas e bem cuidadas, é determinante na escolha ali pelo ovo caipira”, apontou a zootecnista.
Por que o caipira custa mais caro?
O preço mais elevado é outro ponto que chama atenção dos consumidores. Segundo Gislaine, o sistema de criação exige mais espaço, mão de obra e custos de alimentação.
Além disso, muitos produtores precisam investir para atender às exigências sanitárias e obter os selos de inspeção necessários para comercializar o produto formalmente. Apesar dos desafios, o segmento continua em expansão.
“É um nicho que tem muito espaço e que tem poucas pessoas na formalidade. Então tem muita coisa para a gente trabalhar e muito espaço para ganhar”, destacou.
Proteína caipira pode render mais que o convencional. (Foto: IMA)
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A formalização permite que produtores tenham acesso a novos mercados, como supermercados, programas institucionais e até mesmo a merenda escolar. Com isso, o produto caipira consegue alcançar maior valor agregado e costuma apresentar boa aceitação pelos consumidores.
Afinal, vale a pena pagar mais pela proteína caipira?
Do ponto de vista nutricional, as especialistas são unânimes: o ovo convencional atende plenamente às necessidades da maioria das pessoas.
Assim, a escolha entre ovo caipira e convencional passa menos pela nutrição e mais por preferências individuais, forma de criação das aves, bem-estar animal, origem do produto e capacidade financeira do consumidor.
No fim das contas, a gema mais escura pode até chamar mais atenção, mas quando o assunto é nutrição, o que realmente importa é que ambos os ovos continuam sendo fontes acessíveis de proteína, vitaminas e minerais essenciais para a saúde.
Nutricionista esclarece que o colesterol presente no ovo é diferente do colesterol circulante no sangue. (Foto: Reprodução)