Começa nesta quarta-feira (15), a partir das 9h, a sessão do Tribunal do Júri que julga o caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva, acusado de matar o advogado Renato Gomes Nery, de 72 anos, em 2024. A sessão será presidida pelo juiz Marcos Faleiros, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá, e realizada no Fórum da Capital.
O Ministério Público (MPMT) elencou 5 testemunhas para depor em plenário: os delegados Bruno Sérgio Magalhães Abreu e Caio Fernando de Albuquerque, responsáveis pelas investigações; o escrivão Davi Padilha Nogueira; Kaster Huttner Garcia; e Lívia Moreira Gomes Nery, filha da vítima.
Inicialmente, a irmã de Lívia, Renata Nery, iria prestar depoimento, contudo, na quinta-feira (9) o juiz Marcos Faleiros acatou o pedido pela substituição da oitiva da filha do advogado, para que Lívia deponha em seu lugar.
A substituição ocorre pois Renata encontra-se em tratamento psicológico, com recomendação profissional para que não seja exposta a situações capazes de agravar estado emocional, diz laudo psicológico apresentado no processo.
As testemunhas elencadas pela defesa de Alex Roberto, por meio da Defensoria Pública (DPEMT), serão as mesmas indicadas pelo MPMT. Há poucas semanas do júri a defesa anterior do réu renunciou, desse modo, a assistência será feita pela Defensoria.
As testemunhas devem ser ouvidas pelo juiz, e questionadas pelo promotor de Justiça e o representante da Defensoria. Ao final, sete jurados devem decidir pela condenação ou absolvição de Alex Roberto.
O júri será aberto ao público e poderá ser acompanhado pela imprensa. O ato também será transmitido ao vivo pelo canal no YouTube do Tribunal de Justiça (TJMT).
Crime completa dois anos uma semana antes do julgamento
Segundo denúncia do Ministério Público, no dia 5 de julho de 2024, por volta das 9 horas da manhã, Alex Roberto de Queiroz Silva efetuou disparos de arma de fogo contra o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Mato Grosso, (OAB-MT) Renato Gomes Nery, na época com 72 anos.

Renato chegava no escritório de advocacia na Avenida Fernando Correa da Costa, em Cuiabá, quando foi atingido pelos tiros. O crime teria sido executado por Alex e elaborado no contexto de organização criminosa e sob intermediação do codenunciado, policial militar Heron Teixeira Pena Vieira.
Uma pistola Glock adaptada para percussão de tiros em rajada foi utilizada. Ele foi atingido por 6 tiros.
Nos dias que antecederam o homicídio, Alex monitorou a rotina de Renato, inclusive rondou o escritório de advocacia na véspera do crime.
Já no dia 5 de julho, foi de moto até o local, posicionou-se em uma rua lateral ao escritório e, enquanto a vítima subia as escadas do estabelecimento, efetuou os disparos direcionados à cabeça do advogado.

Os tiros foram realizados em via pública de intenso movimento, em pleno horário comercial, expondo ao perigo não só a vítima, mas também outras pessoas que poderiam estar no local.
O uso de arma preparada para disparos em rajada multiplicou o risco a terceiros, com maior dispersão dos projéteis e menor controle sobre a precisão dos tiros, reduzindo as chances de defesa da vítima.
Renato chegou a ser socorrido com vida e encaminhado a unidade hospitalar para atendimento médico, mas morreu na manhã seguinte, em 6 de julho de 2024, após procedimento cirúrgico.

Nos dias que sucederam o homicídio, de acordo com o MP, Alex teria adotado diversas medidas com o objetivo de dificultar as investigações e ocultar envolvimento no crime, inclusive queimando objetos relacionados ao crime e escondendo a motocicleta utilizada para o deslocamento.

Disputa judicial por terras
Conforme o Ministério Público, o homicídio foi praticado no contexto de uma disputa judicial envolvendo mais de 12 mil hectares de terra em Novo São Joaquim (MT). Renato Nery representava uma das partes no litígio e acabou se tornando coproprietário, após décadas de discussão judicial.
Em março de 2024, o advogado obteve liminar no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), que suspendeu o pagamento de arrendamentos no importe de R$ 2.358.873,73, e, em 28 de junho do mesmo ano, sobreveio decisão de mérito confirmando o bloqueio de tais repasses.
Além disso, em 25 de junho, dez dias antes da morte, Renato enviou representação ético-disciplinar à Seccional da OAB-MT em face de advogados acusando-os de coordenarem um “escritório do crime”, com suposta participação de membro do Poder Judiciário estadual.
Em 1º de julho de 2024, o advogado promoveu a juntada da representação disciplinar à ação judicial de anulação de acordo, tornando-a pública a terceiros.
Alex confessa participação no crime
Em juízo, Alex Roberto confessou seu suposto envolvimento na morte da vítima. Além disso, a confissão também foi respaldada em documentos anexados no inquérito policial e depoimentos colhidos ao longo da instrução criminal, como declarações de delegados, investigadores, além do interrogatório de Heron.
Alex Roberto e o corréu Heron Teixeira Pena Vieira teriam sido contratados para matar a vítima pelo valor de R$ 200 mil, dos quais R$ 40 mil seriam destinados a Alex. Segundo Alex, ele estaria precisando de dinheiro na época dos fatos por conta de dívidas.

Para a Polícia Civil, Alex seria o executor, que teria sido contratado por Heron, que por sua vez teria sido contratado por Jackson e Ícaro, a mando da empresária Julinere Goulart Bastos e o marido César Sechi.
Há indícios de que Alex atuou em concurso com os policiais militares Heron Teixeira Pena Vieira, Jackson Pereira Barbosa e Ícaro Nathan Santos Ferreira. O crime teria sido praticado com arma e munições do Batalhão da ROTAM, o qual Heron e Jackson possuíam vínculo.
Foram encontrados no celular de Alex vídeos e filmagens em que ele aparece nas adjacências do Batalhão da ROTAM.

Os seis denunciados já foram pronunciados a júri popular e aguardam presos.
Suposto confronto com arma
Ainda segundo o Ministério Público, houve tentativa de acobertamento da arma usada no homicídio de Nery, com a inserção da pistola em “confronto forjado” por outros militares, em 12 de julho de 2024, no Contorno Leste, uma semana após a morte do advogado.
Laudo da Politec atestou perfis balísticos coincidentes. A arma utilizada no crime teria sido emprestada por Ícaro, que entregou para Heron. Dias após o homicídio, Ícaro teria pressionado para devolver a arma de volta, sendo que 7 dias depois ela apareceu na cena do confronto.

Os policiais militares Jorge Rodrigo Martins, Leandro Cardoso, Waison Alesandro e Wekcerlley Benevides de Oliveira que estavam no confronto no Contorno Leste alegaram, aos delegados, que a arma tinha sido apreendida com menores de idade envolvidos no roubo de um veículo Gol roubado.
Em depoimento, um dos menores falou abertamente que a arma que eles utilizaram para praticar o roubo era um simulacro e que, no momento do confronto, eles estavam desarmados.
Atualmente os 4 estão presos, após ter cautelares como uso de tornozeleira eletrônica revogadas.
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