O fechamento repentino do Laticínio Vencedor, em São José dos Quatro Marcos (MT), causou prejuízos a produtores de leite, que podem chegar a R$ 190 mil. Sem receber pelos produtos entregues, muitos precisaram vender animais, renegociar financiamentos bancários e reduzir drasticamente os investimentos nas propriedades para manter a operação funcionando.
O impacto atinge uma região onde a pecuária leiteira é um dos principais motores econômicos. Durante mais de duas décadas, apenas o laticínio Vencedor absorveu grande parte da produção regional, beneficiando cerca de 200 mil litros de leite por dia.
Com o encerramento das operações da planta, dezenas de produtores precisaram buscar novos compradores às pressas, em um mercado que, agora, oferece menos opções para venda do leite e consequentemente uma redução significativa do preço praticado.
Segundo pecuaristas da região, aproximadamente 285 produtores foram afetados pela paralisação, sendo que ao menos 18 possuem valores a receber superiores a R$ 30 mil. Os valores que seguem não pagos se referem ao período de setembro de 2025 e também janeiro, fevereiro e 25 dias de março de 2026.
Venda de animais e baixa nos caixas
Entre os prejudicados está Adauto Silva, do município de Rio Branco (MT), produtor com quatro décadas de atividade. Segundo ele, a empresa sinalizava uma crise passageira e solicitava a manutenção das entregas com promessas de normalização. No entanto, os atrasos tornaram-se recorrentes até a interrupção definitiva. No caso de Adauto, o prejuízo chega próximo de R$ 190 mil.
“No nosso caso, o valor ficou entre R$ 187 mil e R$ 190 mil. Para dizer a verdade, no linguajar popular, arrebentou com a gente. Graças a Deus a propriedade era organizada, então estamos conseguindo sobreviver, mas ninguém fica quatro meses sem receber e consegue recuperar isso rapidamente”, relatou, em entrevista ao Primeira Página.
Sem o capital, a saída foi passar a descapitalizar a propriedade, com diversas medidas emergenciais para conseguir driblar os obstáculos da baixa considerável no caixa. Uma das medidas encontradas foi a venda de animais.
“Tivemos que vender animais que não eram para venda só para conseguir manter a atividade. Você vai se reorganizando aos poucos, mas esse prejuízo não desaparece”, contou.
Além da perda dos recursos, Adauto aponta a desestabilização do mercado, já que os valores de comercialização do leite caíram após o fechamento da fábrica de laticínios.
“Praticamente, todo mundo está entregando para um único laticínio da região. Agora começou uma pequena recuperação, mas o valor que estamos recebendo ainda praticamente não fecha as contas da propriedade. Hoje não existe margem de lucro. A gente trabalha para manter a atividade funcionando e honrar os compromissos”, disse o produtor.

Pressão financeira e impactos na saúde
Para o produtor Juliano Vaz de Souza, a crise foi uma sequência de golpes financeiros. Até pouco antes do colapso, sua propriedade produzia 1.100 litros de leite por dia. O fechamento da unidade deixou um débito de R$ 73 mil referente ao último mês trabalhado.
“O leite já vinha com preço ruim e, de repente, fiquei sem receber quase R$ 73 mil. É desse leite que eu vivo, é dele que sai o sustento da minha família”, afirmou.
A falta de fluxo de caixa obrigou Juliano a renegociar dívidas bancárias, o que restringiu seu acesso a novos créditos. Além disso, outra estratégia foi a interrupção do fornecimento de silagem e ração e reduzir as ordenhas, o que fez sua produção despencar.
“Como o dinheiro não entrou, tive que renegociar dívida no banco e, quando você faz isso, perde acesso a crédito. Depois precisei cortar custos: parei de dar silagem, reduzi a ração, passei a tirar leite uma vez por dia e minha produção caiu de cerca de 1.100 litros para pouco mais de 400 litros por dia. Foi um prejuízo atrás do outro”, revelou.
Durante a entrevista, Juliano ainda relatou que a pressão acumulada diante das indefinições sobre o pagamento afetou, inclusive, sua saúde.
“Você fica preocupado porque tem conta para pagar e o dinheiro não entra. Acabei desenvolvendo um problema de saúde, precisei passar por cirurgia e ainda tive que contratar alguém para trabalhar no meu lugar. Eles pegaram o nosso leite, venderam esse produto e nós ficamos sem receber. É muito difícil passar por uma situação dessas.”, concluiu.
Para Adauto, o que fica é o sentimento de frustração diante da falta de perspectiva de quando irão receber os valores devidos.
“Eles pediam para a gente continuar entregando, diziam que iam organizar tudo. De um dia para o outro, simplesmente pararam de mandar o caminhão buscar o leite. Sem aviso, sem explicação. Foi uma covardia com quem segurou a empresa até o fim”, comentou o produtor.

Cooperativa divide opiniões
Enquanto tentam reaver os valores, os produtores acompanham a articulação da Prefeitura de São José dos Quatro Marcos para criar uma cooperativa que utilize a planta industrial fechada. A proposta, discutida durante reunião realizada na última segunda-feira (6), prevê que os produtores assumam a operação, com aluguel simbólico da estrutura.
Apesar da necessidade de reativar a indústria, os produtores seguem focados em receber os valores atrasados. Alguns dos pecuarista questionam a viabilidade de novos aportes financeiros.
“Se não houver pagamento, não tem como funcionar. O produtor já está escaldado. Além disso, vai ter que colocar dinheiro para fazer essa cooperativa andar. Como colocar dinheiro se nós não temos renda?”, questiona Adauto.
Uma segunda reunião foi marcada para o próximo dia 27 de julho, quando deverá ser debatida a formação da diretoria da cooperativa e os próximos passos para viabilizar o projeto.
O prefeito do município, Jamis Silva Bolandin (União), afirmou que o objetivo da iniciativa é impedir que a estrutura permaneça fechada, repetindo situações semelhantes enfrentadas por outras fábricas de laticínios da região.
“O foco do município é que essa planta volte a funcionar. Conversamos com o proprietário e ele sinalizou que existe a possibilidade de a cooperativa alugar a estrutura para colocar o laticínio novamente em operação”, disse o prefeito.
Planta vendida e busca por acordo
A prefeitura informou ainda que a planta foi vendida e que o novo proprietário teria assumido as dívidas existentes. Uma reunião entre os representantes da prefeitura, produtores e o novo proprietário da planta está agendada para a próxima quarta-feira (15). Na ocasião será realizado o levantamento oficial dos débitos e também o debate de propostas de quitação.
Até lá, centenas de famílias permanecem em um estado de espera, tentando equilibrar as contas de uma atividade que, para muitos, deixou de ser rentável. O desafio, agora, não é apenas produzir, mas manter a viabilidade econômica de uma pecuária que, em meio à crise, tenta buscar alternativas de sobrevivência diante de promessas não cumpridas.
A reportagem tentou contato com o Grupo Ricoy, que é responsável pelo Laticínio Vencedor, para tratar dos pagamentos atrasados, mas até o fechamento do texto não obteve retorno.
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