Quase um em cada cinco reais do crédito rural contratado em Mato Grosso já apresenta algum tipo de problema. Um levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostra que o chamado crédito problemático (que reúne operações inadimplentes, renegociadas e prorrogadas) alcançou R$ 21,79 bilhões até abril deste ano, o equivalente a 18,22% de toda a carteira de crédito rural do estado, o maior percentual desde o início da série histórica.
O estudo aponta que o avanço do endividamento é resultado da combinação de juros elevados, queda nos preços da soja e do milho, custos de produção ainda altos e do cenário econômico enfrentado pelo setor nos últimos anos.
Além do aumento das renegociações, a inadimplência superior a 90 dias também cresceu. Segundo o Imea, as operações em atraso já somam R$ 5,25 bilhões, o equivalente a 4,98% da carteira de crédito rural de Mato Grosso.
Outro indicador que chama atenção é o número de recuperações judiciais no agronegócio. Desde 2023, Mato Grosso lidera o ranking nacional e, somente neste ano, já registrou 332 pedidos, à frente de Goiás, com 296, e Paraná, com 248.
A coordenadora de Desenvolvimento Regional do Imea, Maria Muniz, explica que os resultados refletem uma mudança importante no cenário enfrentado pelos produtores rurais.
“Os resultados mostram uma importante mudança ao longo dos últimos anos. Após um período de melhores margens de rentabilidade entre 2017 e 2021, o produtor passou a enfrentar um cenário mais desafiador, marcado pela queda dos preços da soja e do milho, custos de produção elevados e aumento das taxas de juros”, afirma.
Agronegócio mantém produção, mas rentabilidade diminui
Apesar das dificuldades financeiras, ela destaca que a produção agrícola continua crescendo no estado. O desafio, segundo a coordenadora, passou a ser a gestão financeira das propriedades.
“A produção continua em expansão, porém a gestão dos custos, do fluxo de caixa e do endividamento passa a ser cada vez mais importante para garantir a sustentabilidade da atividade nas próximas safras”, ressalta.
O levantamento compara dois períodos distintos da agropecuária mato-grossense. Entre 2017 e 2021, os produtores viveram um ciclo de maior rentabilidade, impulsionado pelos preços elevados das commodities agrícolas. A partir de 2022, no entanto, o cenário mudou com a queda nas cotações da soja e do milho, a manutenção de custos elevados, influenciados pelos reflexos da guerra entre Rússia e Ucrânia, e o aumento das taxas de juros.
Nesse período, o crédito rural também cresceu de forma significativa. O volume de recursos utilizados pelos produtores passou de R$ 15,58 bilhões na safra 2016/2017 para R$ 47,43 bilhões na safra 2023/2024. Apenas o custeio das lavouras de soja e milho aumentou de R$ 5,65 bilhões para R$ 15 bilhões.
Segundo o superintendente do Imea, Cleiton Gauer, o problema atual não está na capacidade de produzir, mas na redução da rentabilidade.
“O produtor continua produzindo bem, mas esse esforço já não tem se traduzido em resultado financeiro. Além da produtividade, ele precisa administrar custos elevados, preços menores do que os registrados no pós-pandemia e um volume maior de dívidas acumuladas”, afirma.
O estudo também mostra que mais da metade do crédito problemático corresponde a operações renegociadas, indicando que muitos produtores têm buscado reorganizar as finanças para manter a atividade.
Para o Imea, o cenário não indica uma insolvência generalizada do setor, mas exige maior atenção ao planejamento financeiro. Em poucos anos, o percentual de crédito rural com algum tipo de problema saltou de 2,08%, em 2022, para 18,22%, evidenciando o aumento da pressão sobre o caixa das propriedades rurais e os desafios para as próximas safras.
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