Solidão Acompanhada: O Paradoxo da Conexão

Sozinho ou acompanhado: como estou hoje? Como estarei amanhã? Isso para mim é relevante? Às vezes sinto falta de companhia, outras vezes penso em dispensar todos que estão a minha volta para ficar sozinho. Já nem sei se busco a liberdade, arrancando as amarras da solidão ou as correntes do mundo repleto de seres autômatos. Hoje simplificamos nossas desculpas, melhor dizendo, a mentira que está em nossas máscaras, quando afirmamos “que bom estar rodeado de todos vocês”, ou quando contrariamente exclamamos “sou feliz na minha solitude”. Outras vezes não é mentira, apenas nos sentimos bem ao lado de outras pessoas ou sem ninguém por perto, o clássico viver em solitude. Entre mentiras e verdades, seguimos de mãos presas em outras mãos ou de mãos livres, presas na solidão ou no regozijo da solitude.

Inicio o tema de hoje sobre solidão com o texto acima, parte de um ensaio de minha autoria. É interessante observar que a solidão está sempre em voga e preocupa os estudiosos da mente em relação aos seus prováveis benefícios ou malefícios. Reportamo-nos à solidão dentro de um mundo totalmente conectado, em que falamos uns com os outros o tempo todo, trocamos mensagens por via de diferentes canais da internet, acumulamos dezenas, centenas, até milhares de amigos virtuais, seguimos uns, somos seguidos por outros, pessoas que estão bem perto de nós ou que estão muito distantes, às vezes do outro lado do planeta, isso por enquanto, talvez um dia possamos atravessar a exosfera e nos comunicar com vidas extraterrestres. 

Com tudo que se observa na evolução do mundo atual, não há nada que se possa duvidar. Como, então, podemos nos sentir solitários com tantos amigos, tantas mensagens trocadas, tantas palavras, tantos emojis? A verdade é que a companhia não precisa ser quantitativa, mas qualitativa e qualidade é aquela que está ao alcance da mão, não o tempo todo, muitas vezes a maior parte do tempo distante, mas o abraço é sentido em cada encontro, ainda que virtual, assim como o até logo. 

A proximidade é, sem dúvida, mais saudável, porém nem sempre estar perto é sinal de boa companhia, por isso inúmeras vezes nos sentimos sozinhos, mesmo rodeados de outras pessoas, ainda que seja, de modo presencial, num ambiente festivo ou coisa que o valha, ou nas plataformas digitais, compartilhando as telas com centenas de “amigos”. 

Somos individualistas, residimos sozinhos, exercemos trabalhos remotos, não conhecemos quem mora ao lado, nem vamos mais às compras, contamos com o serviço de delivery. A vida solitária deixa de ser pontual ou passageira e passa a ser um comportamento crônico que, conforme cientificamente estabelecido, prejudica a qualidade de vida e contribui com o risco de morte precoce. 

A solidão deixou de ser um problema exclusivo da velhice, hoje alcança a juventude levando a um número maior de desenvolvimento de transtornos mentais nesta faixa etária, como ansiedade, fobias, depressão, abuso de tabaco, álcool e outras drogas, jogos online, pornografia e redes sociais compulsivas na tentativa de anestesiar o vazio, mas agravam o problema. A queda da imunidade é outra questão frequentemente encontrada nas pessoas de vida solitária. O resultado da modernidade é uma sociedade onde, infelizmente, podemos passar dias sem uma conversa saudável, sem encontros presenciais. 

A solidão deixa de ser um sentimento passageiro e se torna um estado crônico, com consequências reais para a saúde. Parece que estamos vivendo a solidão acompanhada, na era da hiperconectividade, que é o momento atual, apontado pelas pesquisas como a época em que os níveis de solidão são os mais altos da história. Por outro lado, precisamos reconhecer o direito à vida solitária saudável, bem elaborada, a chamada solitude. 

Quando há sofrimento, não há solitude, mas solidão, um estado patológico, que merece uma abordagem psicossocial. A solidão acompanhada, por sua vez, é um paradoxo facilmente explicado pela qualidade do passado versus quantidade do presente. Não podemos esquecer que temos a necessidade de ser vistos e ouvidos, de compartilhar nossos medos, alegrias e tristezas, do toque, ainda que virtual, mas aquele que alcança a alma.

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