Reviravolta na contagem dos votos das eleições de 2022 promoveu uma mudança importante na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems) nesta quinta-feira (21). O Partido Liberal (PL), antes com três cadeiras na Casa de Leis, perdeu espaço e, com isso, Neno Razuk deixa de ser deputado estadual. Alvo de processos criminais por envolvimento no jogo do bicho, o político perde, também, proteção garantida por lei.
Apesar de perder o cargo por uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelo crime eleitoral cometido por outra pessoa, o mandato de Neno já era ameaçado por outro motivo: a condenação dele mesmo em um processo criminal.
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Deputado réu é indicado para comissão de Justiça da Alems
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Condenado, Neno Razuk participa remotamente da última sessão da Alems
No dia 15 de dezembro de 2025, Neno Razuk foi condenado a 15 anos e sete meses de prisão por integrar um grupo criminoso com o objetivo de assumir o controle do jogo do bicho em Campo Grande. Outras 11 pessoas também foram condenadas pelo mesmo crime.
O processo é fruto das investigações da Operação Successione, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) em 2023.
Na decisão, deferida pelo juiz José Henrique Kaster, da 4ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), além dos anos de prisão, Neno foi sentenciado à perda do mandato eletivo e à interdição para exercício de cargo público pelo prazo de oito anos.
Sua saída do cargo, no entanto, foi adiada pelos recursos garantidos por lei. Hoje, o processo está “parado” no TJMS, que analisa os pedidos de revisão da sentença feitos pelas defesas dos réus condenados.
Mas as investigações contra o esquema do jogo do bicho em Mato Grosso do Sul renderam outro processo a Neno Razuk. Não só a ele, aliás, a todo o clã Razuk.
Em janeiro deste ano, o agora ex-deputado, o pai dele, Roberto Razuk, os irmãos Jorge e Rafael e outras 16 pessoas se tornaram réus do processo que nasceu com a 4ª fase da Operação Successione, que foi às ruas em novembro de 2025 e revelou o plano da família para tomar o monopólio do jogo do bicho em Mato Grosso do Sul.
Entre os crimes atribuídos à família estão organização criminosa, exploração ilegal do jogo do bicho e lavagem de dinheiro. Roberto Razuk ficou em prisão domiciliar, com uso de tornozeleira, até abril deste ano. Agora responde às acusações sem monitoramento eletrônico.
O segundo processo ainda é analisado pela Justiça. No início de maio, foram realizadas as primeiras audiências de instrução do caso, nas quais foram ouvidas as testemunhas de acusação. Para junho está marcada a audiência para ouvir as testemunhas de defesa.
Sem o cargo por uma condenação que não é sua, Neno Razuk volta a ser um “cidadão normal”. Enquanto deputado estadual, ele não podia ser preso sem homologação da Assembleia Legislativa.
A prerrogativa é garantida pelo parágrafo 1º do artigo 57 da Constituição do Estado de Mato Grosso do Sul: “desde a expedição do diploma até a inauguração da legislatura seguinte, os Deputados não poderão ser presos, salvo em flagrante de crime inafiançável, nem processados por crime, sem prévia licença da Assembleia Legislativa”.
Agora, fica suscetível a qualquer ordem de prisão, sem o escudo legislativo.
Além disso, o ex-deputado ainda pode ter o futuro político interferido pelos processos em andamento no seu nome, já que, se a sentença da 4ª Vara Criminal for mantida na íntegra após trânsito em julgado, ele não poderá exercer qualquer cargo público por oito anos.
Dança das cadeiras

Em 2022, ao fim das eleições, o PL somou 132.945 votos. Pela legislação eleitoral, o número garantiu ao partido direito a três cadeiras na Assembleia: duas por quociente partidário e uma por média.
Entraram os três mais votados: Coronel David, João Henrique Catan e Neno Razuk. Essa configuração, no entanto, foi alterada por Raquelle Lisboa Alves Souza, a Raquelle Trutis.
Raquelle foi candidata pelo partido e recebeu nas urnas 10.782 votos. Na época, recebeu R$ 1 milhão de reais do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), mas, segundo decisão do TSE, desviou o valor para abrir uma empresa no ramo alimentício em Campo Grande junto com o ex-marido, Loester Carlos Gomes de Souza, o Trutis.
A acusação foi contestada , mas em abril deste ano o processo chegou ao fim e, como parte da condenação, Raquelle perdeu os pouco mais de 10 mil votos.
Sem os votos, o PL foi diretamente afetado e perdeu uma das cadeiras na Alems para o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).
Com menos uma vaga, o deputado menos votado foi cortado: Neno Razuk. Nesta quinta-feira, a recontagem definiu o nome de João César Mattogrosso no lugar do candidato do PL.
Segundo o presidente da Alems, o deputado Gerson Claro, assim que a notificação sobre o afastamento de Neno Razuk e a diplomação de João César Mattogrosso chegar à Casa de Leis, será feita a posse do novo deputado estadual. Em caráter imediato.
Não é um processo, é um ato administrativo da presidente, que vai, uma vez considerado nulo o diploma de quem estava exercendo o cargo e apresentando que outro candidato, ou outro partido, tem o mandato, a gente faz a convocação e dá posse ao deputado. É isso que vai acontecer assim que a gente receber a notificação oficial. Sem notificação, não acontece nada.
Gerson Claro
Despedida
Logo após a confirmação de sua saída da Alems, Neno enviou uma nota de despedida. No texto, agradeceu aos mais de 17 mil votos recebidos em 2022 e afirmou ter honrado cada um com “trabalho e responsabilidade”.
Confira na íntegra:
Hoje encerro um ciclo de quase 8 anos na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul.
Agradeço, de coração, aos 17.023 eleitores que confiaram em mim. Cada voto foi honrado com muito trabalho e responsabilidade.
Levo comigo a certeza de que lutei por causas importantes, especialmente pelas pessoas com deficiência, pela causa TEA e pelos neurodivergentes.
Sigo acreditando que a ALEMS continuará avançando na construção de políticas públicas eficazes e inclusivas.
Meu muito obrigado a todos.