Décadas antes do Banco Master, o Brasil vivenciou outro esquema financeiro de nome semelhante e que lesou mais de 40 mil pessoas em todo o país, incluindo em Mato Grosso. O caso da Avestruz Master, que chegou a ter sede em Cuiabá, completa 21 anos em 2026 e muitas das vítimas ainda não foram indenizadas. O prejuízo causado aos investidores foi superior a R$ 1 bilhão.
De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), a Avestruz Master foi uma empresa que fornecia contratos de venda e compra de avestruzes, com a honra de recompra dos animais. Na teoria, a organização teria comercializado mais de 600 mil animais em 7 anos de atividade, mas na realidade, só possuía 38 mil.
Para o MPF, porém, o negócio era uma espécie de “pirâmide financeira”, que oferecia retorno apenas enquanto eram recrutados novos investidores. Dos 40 mil investidores, cerca de 75% eram de Goiás, e o restante de outros estados.
A Comissão de Valores Mobiliários, a Polícia Federal e o MPF em Goiás realizaram investigações que resultaram em ação penal apresentada contra os diretores da empresa.
O esquema foi descoberto no final de 2005, quando várias irregularidades no negócio, como a emissão de títulos de investimento fraudulentos e a venda de aves acima do número existente vieram a tona.
Relembre o caso
“Olá amigos, parceiros de criadores de avestruz. 2004 foi um ano extraordinário para a estrutiocultura. A criação de avestruz no Brasil deu um grande salto e em nossas fazendas tivemos o nascimento de 12 mil filhotes. 2005 será ainda melhor”, dizia trecho de um comercial exibido em televisão.
Nele, quem falava era Jerson Maciel, o dono da Avestruz Master, empresa sediada em Goiás, com fazendas na Rodovia GO-020, no município de Bela Vista de Goiás, onde chegou a manter milhares de aves.
A Avestruz Master prometia lucros mensais de até 10% com a venda e recompra de avestruzes, além do aproveitamento comercial da carne, couro e plumas das aves. O retorno estava fora de qualquer outro investimento na época, o que atraiu mais de 40 mil pessoas de todo o país, e até do exterior.
O modelo de negócios envolvia a compra de um casal de avestruzes por meio de Certificados de Produto Rural (CPRs). A propriedade dos animais era do investidor, mas os animais eram cuidados pela empresa.

O caso, considerado o maior crime financeiro da história goiana, foi resgatado no final de 2025 no podcast de cinco episódios “Avestruz Master”, série original da Rádio Novelo, apresentada por Paula Scarpin, Flora Thomson-DeVeaux e Carolina Moraes.
As jornalistas relembraram fatos da época e falaram com pessoas envolvidas no caso.
Por que avestruz?
Considerado na época um novo ramo do agronegócio, a estrutiocultura, ou criação de avestruz, teve o auge da valorização no final dos anos 1990. Dentre as vantagens de manejar a ave exótica de origem africana estavam a precocidade no início da reprodução e a alta reprodutividade.
Além disso, do avestruz se aproveitava basicamente tudo: da carne, ao bico, unhas e cílios. O custo com manutenção do animal era considerado baixo, apesar da carne ter alto valor de mercado. No Brasil, um quilo da carne custava entre R$ 60 e R$ 80. Na Europa, o preço era US$ 16.
Quem estava por trás da Avestruz Master?
Os réus do caso eram Jerson Maciel da Silva Júnior e Patrícia Áurea Maciel da Silva, filhos de Jerson Maciel da Silva, criador da Avestruz Master, e o marido de Patrícia, Emerson Ramos Correia. Os três eram diretores da Avestruz Master.
A sede da empresa ficava na Avenida T-10, em Goiânia, em um prédio de três andares com um ovo gigante no topo da torre. No último andar ficava a sala de Jerson Maciel.
Em cinco anos a Avestruz Master tornou-se o maior criatório de avestruzes das Américas, com pelo menos dez fazendas em Bela Vista de Goiás (GO).

Empresa chegou a ter filial em Cuiabá
A Avestruz Master chegou a ter filiais em sete estados, incluindo Mato Grosso, com sede em Cuiabá, na avenida Presidente Marques. Uma das propagandas veiculadas pela empresa chega a mencionar a capital mato-grossense.
A inauguração da primeira fazenda de criação da Avestruz Master em Cuiabá, ocorreu em 9 de setembro de 2004, segundo reportagem publicada no jornal impresso A Gazeta, em 1º de setembro daquele ano.
“Trabalhando em sistema de parceria, a empresa garante a compra de exemplares de quem adquiriu o avestruz para criação na Master. A intenção é estabelecer vários nichos de criadores que venham a abastecer o frigorífico da empresa que será inaugurado em 2005, no Estado de Goiás. Em Mato Grosso, a Master já está presente em Vila Rica e Barra do Garças”, diz trecho do jornal.
A reportagem ainda cita que a fazenda da Avestruz Master em Cuiabá tinha 94 hectares, com 50 piquetes e estava localizada na rodovia Cuiabá – Santo Antônio do Leverger.
De início seriam criados 200 animais, mas a meta do projeto era aumentar para 500 piquetes, com 1,5 mil aves produzindo. O investimento total para inauguração da fazenda na Capital de Mato Grosso foi de R$ 500 mil em estrutura e mais R$ 500 mil em aves.
“Segundo o sócio da filial mato-grossense da Avestruz Master, Ubiratan Ribeiro Pinto, o investimento inicial para quem quer se tornar um criador é de R$ 2,3 mil (para aves de seis meses) e R$ 12 mil para aves de 20 meses (primeira postura). A empresa garante a recompra da produção das aves adquiridas na Master em período mínimo de 60 dias e máximo de nove meses”, diz parte da reportagem.
Fuga para Mato Grosso
Segundo um ex-segurança da empresa, dias antes da falência, a família dona do negócio fugiu para Mato Grosso. Em depoimento à Justiça, revelado pelo podcast Avestruz Master, o antigo funcionário contou que às vésperas da fuga , a família Maciel teria recebido ameaças de morte.
Em um carro estavam Jerson Maciel com a esposa, a filha Patrícia e o genro Emerson. Em outro carro estavam outros funcionários.
Conforme o depoimento, eles teriam ficado em um hotel, sem sair e sem contato com outras pessoas e depois foram para Mato Grosso do Sul, rumo a Ponta Porã, no Paraguai.
Ascensão e queda
O dia 4 de novembro de 2005 ficou marcado na memória de muitos goianos e brasileiros pelo fechamento das portas da Avestruz Master. A data tida como “colapso definitivo da empresa”, se deu em função de cheques de investidores que começaram a retornar por falta de fundos.
Na manhã daquele dia, a sede da empresa, na Avenida T-10, em Goiânia, estava fechada, o que gerou protestos na porta do edifício.
Há mais de 800 quilômetros de Goiânia, a sede da empresa em Cuiabá também estava fechada.
Reportagem veiculada no Diário de Cuiabá, em 16 de novembro de 2005, cita que, ao contrário do anunciado pela direção da Avestruz Master durante a semana anterior, de que as atividades seriam retomadas, as portas do escritório em Cuiabá (MT) amanheceram fechadas.
“Para quem passava em frente da empresa, na avenida Presidente Marques, as grades sobre a porta de vidro denunciavam o novo fechamento. O aviso informava apenas que o expediente será normal a partir desta quarta-feira. site da Master continua fora do ar”, diz trecho da reportagem de Marianna Peres.
Procurado pela reportagem do Diário de Cuiabá, o sócio da filial mato-grossense, Ubiratan Ribeiro Pinto, não informou o número de investidores da Master em Mato Grosso.
“Com filial inaugurada há pouco mais de um ano em Cuiabá, a Avestruz Master, de um projeto de R$ 3 milhões, já teria aplicado cerca de R$ 1 milhão na implantação de infraestrutura e para formação de um plantel de 200 aves. No ano passado a Master obteve um faturamento bruto de R$ 400 milhões, e para este ano projetava R$ 600 milhões”, conclui a reportagem.
Indícios de fraude e investigação
O ex-superintendente do Procon de Goiás, Antônio Carlos de Lima, começou a receber, no final de 2003, denúncias que relatavam a possibilidade de um golpe financeiro envolvendo a empresa.
Um laudo produzido pela Polícia Federal (PF) mostrou que em 2004 a empresa investiu mais de R$ 4 milhões em publicidade, enquanto os gastos com ração para as aves foram de R$ 100 mil no mesmo ano.
Processos contra a empresa estavam espalhados por 49 varas de Justiça em Goiás, Minas Gerais, Tocantins, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Distrito Federal.
Como vários Ministérios Públicos estaduais estavam investigando o caso, o processo foi parar no MPF, por se tratar de por crime contra o sistema financeiro nacional.
Quem comandou as investigações foi o procurador da República, Daniel de Resende Salgado. O MPF sequestrou os bens de todos os sócios, incluindo as Ferraris, uma BMW, além de armas e um helicóptero.

De acordo com a denúncia do MPF à Justiça, apesar das promessas de lucro da empresa com a estrutiocultura, não havia mercado interno para a produção e nenhuma ave ou produto derivado chegou a ser exportado pela Avestruz Master, que nem sequer tinha autorização para a venda internacional.
Ao todo, mais de 600 mil aves chegaram a ser comercializadas em 172.298 CPRs para 45,1 mil investidores. A Associação dos Criadores de Avestruzes do Brasil (Acab), no entanto, informava existirem apenas 330 mil animais no Brasil.
Segundo o MPF, o plantel da Master contava, na verdade, com 38 mil aves e 17 mil ovos.

O que dizia a empresa?
Os advogados da Avestruz Master alegaram, em pedido de habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF), em dezembro de 2005, que a empresa não comercializa qualquer valor mobiliário, o que afastaria a competência da Justiça Federal no caso.
Segundo eles, a atividade principal da empresa era a venda de aves individualizadas. Os advogados de Jerson Maciel da Silva ainda sustentaram que não se tratava de crime contra o Sistema Financeiro Nacional.
“A defesa afirma que o empresário é idoso (65 anos), e tem diversos problemas de saúde, como diabetes e hipertensão. Ressalta que entregou seu passaporte para a Polícia Federal para atestar que não tem a intenção de se ausentar do país. Os advogados pedem, por fim, a desconstituição do decreto de prisão para que o empresário responda ao processo em liberdade. No mérito pedem a confirmação da decisão”, diz trecho da petição publicada no portal do STF.
Condenação
Em fevereiro de 2008, o ex-dono da Avestruz Master, Jerson Maciel da Silva, morreu aos 68 anos, vítima de câncer no fígado enquanto ainda respondia pelos crimes na esfera judicial.
Em janeiro de 2010, a Justiça Federal de Goiás condenou à prisão dois filhos e o genro do empresário Jerson Maciel da Silva, criador da Avestruz Master. O trio foi considerado culpados por crimes contra a economia popular, o sistema financeiro e relações de consumo, diz matéria do correspondente da Folha de São Paulo, Rodrigo Vargas.
Patrícia Áurea da Silva Maciel, filha do empresário e ex-diretora financeira do grupo, foi condenada a 13 anos e 6 meses de prisão. Jérson Maciel da Silva Júnior, ex-diretor comercial, pegou 12 anos e 45 dias.
Outra condenação coube a Emerson Ramos Correa, genro do empresário e ex-diretor da Avestruz Master: 12 anos e 10 meses. A sentença também determinou o pagamento de R$ 100 milhões a título de indenização aos investidores lesados.
Em 2013, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) manteve as condenações, mas em regime semiaberto, e retirou do processo a obrigação de ressarcimento financeiro aos lesados no esquema.
Em setembro de 2019, 14 anos após a quebra da empresa, Jerson Júnior, Patrícia e Emerson foram presos após a 11ª Vara da Justiça Federal de Goiânia determinar que eles cumprissem a condenação por crime contra o sistema financeiro nacional.
Em abril de 2022, o Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO) extinguiu o processo criminal contra acusados de fraudes na gestão da empresa em processo de falência, alegando prescrição dos crimes.
E os animais?
Devido a quebra da empresa e a falta de recursos para continuar o manejo milhares de avestruzes morreram. Ex-funcionários narraram que foram abertas valas com tratores para despejar animais mortos.
Moradores de propriedades rurais vizinhas das fazendas relataram mau cheiro vindo dos locais.
Outras aves foram para abate e algumas foram vendidas.
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