Glaucoma: a doença silenciosa que pode levar à cegueira irreversível

Considerada uma doença silenciosa e indolor, o glaucoma é tido como a principal causa de cegueira irreversível no mundo. Estima-se que mais de 80 milhões de pessoas sejam afetadas globalmente e o número tende a crescer com o envelhecimento populacional.  

No Brasil, dados epidemiológicos indicam que cerca de 1% da população acima de 40 anos tem glaucoma, e uma parcela significativa ainda não sabe que tem a doença. Além disso, a prevalência de pacientes com essa condição aumenta com a idade, chegando a 3,5% a 5,5% entre pessoas próximas dos 70 anos.  

Contudo, apesar da gravidade e de não ter cura, é possível promover o controle do glaucoma, sendo que o diagnóstico e acompanhamento médico oftalmológico e precoce evitam a perda da visão. 

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Pessoas acima de 40 anos, com histórico familiar de glaucoma, miopia elevada, e origem afrodescendente estão entre os grupos de risco. – Foto: Reprodução 

O que é o glaucoma e como ele afeta a visão? 

De acordo com o médico oftalmologista Lucas Maciel, o glaucoma é uma doença que danifica o nervo óptico de forma gradual e irreversível. Este nervo é a estrutura responsável por transmitir as imagens captadas pelo olho ao cérebro.

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No glaucoma, as células que compõem esse nervo vão se deteriorando ao longo do tempo. O resultado é uma perda progressiva do campo visual.  

“Quando os sintomas se tornam perceptíveis, a doença já está em estágio avançado. O paciente começa a notar dificuldade para enxergar nas laterais, tropeça em objetos, têm dificuldade em ambientes com pouca luz ou passa a ter problemas para dirigir. Em casos muito avançados, a visão se reduz ao chamado ‘campo tubular’, como se a pessoa enxergasse somente no centro do campo visual”, explica o especialista. 

Além disso, existem diferentes tipos de glaucoma. Os dois tipos mais prevalentes são o glaucoma primário de ângulo aberto, responsável pela maioria dos casos, e o glaucoma primário de ângulo fechado, mais comum em populações asiáticas.  

Há também o glaucoma secundário, que ocorre como consequência de outras condições, como o uso prolongado de corticosteroides, trauma ocular, entre outros. Existe ainda o glaucoma congênito, presente desde o nascimento ou manifestado na infância, que exige abordagem cirúrgica precoce. 

Quem está mais vulnerável a desenvolver glaucoma? 

Pessoas com idade acima de 40 anos, histórico familiar de glaucoma, pressão intraocular elevada, espessura corneana fina, miopia elevada, e origem afrodescendente estão entre grupos de risco.  

De acordo com o médico Lucas Maciel, a partir dos 40 anos a realização de exames oftalmológicos periódicos é amplamente recomendada. Para pessoas com fatores de risco associados, essa vigilância deve começar antes e ser feita com maior frequência. 

“O histórico familiar de glaucoma em parente de primeiro grau multiplica o risco em cerca de quatro a nove vezes. É um fator extremamente relevante. Além da genética e da idade, merecem atenção, como o uso crônico de corticosteroides, a presença de diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica, síndrome da apneia do sono, e traumatismos oculares prévios”, explica. 

Em casos onde o estágio da doença é constatado de forma mais avançada, a perda da visão é irreversível, já que células mortas não se regeneram. Devido a isso, o tratamento reforça preservar as condições que ainda são tratáveis.  

“Quanto antes a doença for identificada e controlada, maior a quantidade de nervo que se consegue preservar ao longo da vida do paciente”, menciona o médico. 

Detecção precoce, diagnóstico e tratamento 

Conforme o especialista, se engana quem pensa que só procura médico quem tem sintomas. No caso do glaucoma, esperar que eles surjam é, na prática, esperar pela perda de visão.  

“A única forma de proteger a visão é o rastreamento ativo em exames de rotina, antes que qualquer queixa apareça. Essa mudança de cultura é um dos maiores desafios no manejo do glaucoma”, cita. 

O diagnóstico é clínico, multiparamétrico e a análise integrada de todos os exames é o que embasa o diagnóstico. A avaliação médica, dirá se a condição será tratada com colírios, laser ou procedimento cirúrgico. 

A cirurgia é indicada quando os colírios e o laser não são suficientes para atingir a pressão-alvo, ou quando a doença está avançando apesar do tratamento clínico otimizado. Outro ponto importante é que o tratamento é vitalício.  

“O acompanhamento contínuo é essencial porque a doença pode progredir mesmo com tratamento, e essa progressão precisa ser detectada precocemente para que a estratégia terapêutica seja ajustada. Além disso, o acompanhamento regular permite avaliar a adesão ao tratamento, identificar efeitos adversos dos medicamentos e reavaliar a pressão-alvo conforme o estado do nervo óptico ao longo do tempo”, comenta Lucas. 

O que pode acontecer com o paciente que abandona o tratamento? 

O abandono do tratamento é uma das principais causas de progressão para cegueira. Sem o controle pressórico adequado, o nervo óptico continua se deteriorando em ritmo acelerado. No entanto, com o glaucoma diagnosticado e tratado, é possível levar uma vida normal, destaca. 

“A grande maioria dos pacientes com glaucoma diagnosticado precocemente e tratado adequadamente leva uma vida normal. Trabalham, dirigem, praticam atividades físicas e mantêm plena independência. O diagnóstico exige adaptações, como o uso regular dos colírios, consultas periódicas, realização de exames, mas não impede uma vida plena”, reforça. 

Por isso, a recomendação é que toda a população adulta realize exames oftalmológicos anualmente. Essa periodicidade permite o rastreamento precoce não apenas do glaucoma, mas de diversas outras doenças oculares silenciosas.  

Para pessoas com fatores de risco para glaucoma o acompanhamento anual é ainda mais indispensável, podendo ser intensificado para consultas semestrais, conforme a avaliação do oftalmologista.

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