A produção de vinhos finos em Mato Grosso é o tema do novo episódio do podcast Agro de Primeira, lançado nesta quinta-feira (6). O programa mostra os bastidores da vitivinicultura no estado e acompanha a trajetória da Vinícola Locanda do Vale, localizada em Chapada dos Guimarães (MT), onde um casal transformou o sonho de produzir vinho em meio ao cerrado mato-grossense em realidade.
Produzir vinho fino em um estado conhecido pelas altas temperaturas e pela força na produção de soja, milho e algodão ainda desperta desconfiança em muita gente. Mas, na prática, o cultivo de uvas viníferas em Mato Grosso já vem ganhando espaço graças a técnicas específicas de manejo e às condições climáticas encontradas em regiões como a Chapada.
Os fundadores da vinícola, Rachel Molina e Luiz Oliveira, explicam que o projeto nasceu da paixão por vinhos e da vontade de voltar ao campo. “Todo mundo que vai para a praia volta querendo abrir uma pousada. A gente visitava vinícolas e voltava querendo produzir vinho”, brinca Luiz.
Assista o episódio aqui:
Apesar do clima quente do estado, a produção se tornou possível graças à técnica da dupla poda, manejo desenvolvido por pesquisadores mineiros que desloca a colheita da uva para o período do inverno mato-grossense.
“O nosso inverno é muito parecido com o verão das principais regiões vinícolas do mundo. A gente consegue maturação da uva com sol, noites mais frescas e sem chuva”, explica o produtor.
Três negócios em um
Segundo Luiz, a vitivinicultura exige atuação em diferentes frentes ao mesmo tempo. Além do cultivo da uva, é preciso transformar o fruto em vinho e ainda trabalhar a comercialização e o turismo.
“São três negócios em um. A gente planta a uva, produz o vinho e recebe as pessoas na vinícola. É agricultura, agroindústria e turismo ao mesmo tempo”, afirma.
O trabalho começa ainda no vinhedo. A propriedade possui quatro hectares cultivados e demanda mão de obra constante para poda, controle de pragas, manejo das folhas, irrigação e monitoramento da maturação.
A definição do momento exato da colheita depende de análises frequentes de açúcar, acidez e pH da fruta. Só depois disso a uva segue para a vinícola, onde começa a transformação em vinho.
“A gente colhe de madrugada e, poucas horas depois, a uva já está dentro dos tanques com temperatura controlada. Isso evita estresse, oxidação e perda de qualidade”, explica.
Depois da fermentação, parte dos vinhos permanece em tanques de inox e outra parte descansa em barricas de carvalho francês por até um ano. Em alguns casos, o produto leva mais de dois anos entre a colheita e a chegada ao consumidor.
Produção pequena e artesanal
A Locanda do Vale produz atualmente cerca de 10 mil garrafas por ano, número considerado pequeno diante das grandes vinícolas brasileiras. O modelo, porém, é intencional.
“Vinícola boutique é isso: pouca escala e muito controle. A gente consegue acompanhar cada etapa e entregar um produto mais personalizado”, diz Raquel.
O casal afirma que a prioridade não é expandir rapidamente, mas consolidar a identidade do vinho mato-grossense.
“O nosso sonho é vender toda a produção dentro do Mato Grosso. Queremos que as pessoas daqui descubram que o estado também produz vinho de qualidade”, define Luiz.
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