A primeira parlamentar criada por inteligência artificial na América Latina pode disputar uma vaga no Senado da Colômbia nas eleições marcadas para 8 de março. A avatar Gaitana IA se apresenta como uma mulher indígena de pele azul e concorre a uma cadeira reservada aos povos originários no Congresso colombiano.
A candidatura é estruturada a partir de uma plataforma digital com agente de conversação (chatbot), por meio da qual mais de 10 mil usuários registrados ajudam a formular as posições políticas da personagem virtual.
Durante o período de campanha, qualquer pessoa pode acessar o sistema e enviar perguntas à “Gaitana”. Caso a chapa seja eleita, a mesma ferramenta será utilizada para consultar a comunidade sobre votações e projetos em tramitação.
Entre as principais pautas defendidas estão a proteção ambiental, a defesa do território e uma agenda de viés antissistema.
Como funciona a candidatura
A avatar concorre simultaneamente a cadeiras no Senado e na Câmara dos Representantes da Colômbia. Como a legislação do país não permite o registro formal de uma candidatura em nome de uma inteligência artificial, cada chapa é oficialmente encabeçada por um candidato humano, que também integra o grupo criador do projeto.
Estão à frente da iniciativa o engenheiro indígena Carlos Redondo, do povo zenú, e a antropóloga Alba Rincón.
O eleitor que optar pela proposta deverá selecionar a opção “IA” na cédula, vinculada à candidatura humana registrada.
Caso a chapa seja eleita, a dinâmica de votação seguiria a mesma lógica participativa: a plataforma traduziria os projetos de lei em linguagem simplificada, e a comunidade cadastrada decidiria, de forma coletiva, o posicionamento a ser adotado no Congresso.
Atividades que exigem presença física, como apresentação formal de projetos, participação em sessões e votações em plenário, continuariam sendo exercidas pelos representantes humanos.
Debate internacional
A discussão sobre o uso de inteligência artificial em cargos públicos já provoca controvérsias em outros países. Em setembro de 2025, a Albânia anunciou a nomeação de uma ministra gerada por IA, considerada a primeira do mundo nesse formato.
Meses depois, em fevereiro de 2026, a atriz Anila Bisha ingressou com ação judicial contra o governo albanês, alegando uso não autorizado de sua imagem e voz para a criação da personagem virtual.
Os casos ampliam o debate jurídico e ético sobre representação política, legitimidade democrática, responsabilidade civil e direitos de imagem.
E no Brasil?
No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral ainda não divulgou as resoluções que irão regulamentar as eleições gerais de 2026.
Contudo, o cenário atual indica que não há previsão de autorização para candidaturas vinculadas diretamente a sistemas de inteligência artificial.
A Resolução TSE nº 23.610/2019, que disciplina a propaganda eleitoral e foi atualizada para as eleições de 2024, já estabelece restrições ao uso de robôs para intermediar a comunicação com eleitores.
Especialistas avaliam que qualquer avanço nesse campo exigiria mudanças legislativas específicas, além de amplo debate constitucional.